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|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
do_obra_001_133 | demais das cercanias, não é um rio, mas um dreno transitoriamente cheio pelos enxurros que ele canaliza para o
Vaza-Barris, substitui o caminho numa longura de meia légua. De uma e outra banda, apontando-lhe às margens,
viam-se as trincheiras dos jagunços, pouco espaçadas, cruzando-lhe por cima os fogos, enfiando-o d... | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 82 | ||
do_obra_001_134 | abarracamentos, lobrigara ou julgara lobrigar vulto suspeito deslizando na sombra; e disparara a espingarda. Era,
certo, o inimigo anelado. Vinha como viera sobre outro s expedicionários, de improviso, num arranco atrevido e
subitâneo, e célere.
Então sobre os que ansiavam tanto a medir-se com ele passou, alucinad... | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 87 | ||
do_obra_001_135 | ou então alentadas discussões sobre política geral. Enquanto observadores tenazes, num invejável apego à
ciência, registravam, hora por hora, pressões e temperaturas; inscreviam, invariável, um zero na nebulosidade do
céu; e consultavam muito graves o higrômetro. Na farmácia militar, estudantes em férias forçadas ria... | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 80 | ||
do_obra_001_136 | chapa circular em brasa — um sol bruxuleante, de eclipse. Rompia-a, porém, de súbito, uma lufada rija. Pelo
rasgão enorme, de alto a baixo aberto, divisava-se um a nesga do arraial — bandos estonteados de mulheres e
crianças correndo para o sul, em tumulto , indistintos entre as folh agens secas das latadas. As bater... | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 83 | ||
do_obra_001_137 | Últimos dias
I. O estrebuchar dos vencidos. Os prisioneiros.
II. Depoimento de uma testemunha.
III. Titãs contra moribundos. Em torno das cacimbas. Sobre os muradais da igreja nova.
IV. Passeio dentro de Canudos.
V. O assalto. Notas de um Diário.
VI. O fim. Crânio do Conselheiro.
VII. Duas linhas. ... | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 83 | ||
do_obra_001_138 | Tombavam-lhes logo em cima, revessada s de todos os trechos artilhados, lanternetas desabrolhando em balas.
Não as suportavam. Desciam ,em despenhos e resvalos de símios, daqueles muradais Perdiam-se nos pardieiros
próximos ao santuário. E ressurgiam, inopinadamente, junto de um ponto qualquer da linha Batiam-no, era... | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 80 | ||
do_obra_001_139 | Ainda mais, trancadas todas as saídas, começara para todos, lá dentro, o suplício crescente da sede.
Não iam além as informações. Os que as faziam, inteiramente sucumbidos, mal respondiam às perguntas.
Um único não refletia na postura abatida as provações que vitimavam os demais. Forte, de estatura meã e | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 77 | ||
do_obra_001_140 | intento Achegou-se com o braço. Diminuto na altura, en tretanto, custou a enleá-lo ao pescoço do condenado.
Este, porém, auxiliou-o tranqüilamente; desceu o nó embaralhado; enfiou-o pelas próprias mãos, jugulando-se. . .
Perto, um tenente do estado-maior de primeira classe e um quintanista de medicina contemplavam ... | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 83 | ||
do_obra_001_141 | Um grito de protesto
Ademais, não havia temer-se o juízo tremendo do futuro. A História não iria até ali.
Afeiçoara-se a ver a fisionomia temerosa dos povos na ruinaria majestosa das cidades vastas, na
imponência soberana dos coliseus cicl ópicos, nas gloriosas chacinas das ba talhas clássicas e na selvatiqueza | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 79 | ||
do_obra_001_142 | De um momento para outro aquilo terminaria; e rest ar-lhes-ia a volta inglória — espadas virginalmente
novas, bandeiras intactas sem o rendado precioso das ba talhas. Porque o general-em-chefe não encobria o
propósito de não precipitar os aconteci mentos num dispêndio inútil de vidas, quando a rendição em poucos dias | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 80 | ||
do_obra_001_143 | Era um golpe de audácia estupendo. Mas não conheciam os sertanejos. Estes tomaram-lhes vigorosamente o
passo. Jarretaram-nos. Anularam-lhes, no fim de algum tempo, o intento. E vingaram-se sem o saberem. Porque
havia, de feito, algo de dolorosamente insolente e irritante no afogo, na inquietação, na ânsia desapoderad... | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 81 | ||
do_obra_001_144 | comprimiam os sertanejos, atirando-os de encontro à vertente da fazenda Ve lha ao sul, e a leste contra igual
número de baionetas dos 25°, 7.o, 9.°, 35°, 40.o, 30.°, 12.°, 26°, de linha e 5o de Polícia.
Eram 5 mil soldados, em números redondos, excluídos os que permaneciam de guarda ao acampamento e | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 76 | ||
do_obra_001_145 | Mas a empresa tornara-se, ao cabo, dificílima. A constri ção do sítio condensara nas casas os que as defendiam e
estes, enchendo-as, opunham resistência crescente. Quando cediam num ou noutro ponto, os vencedores tinham,
ainda, inopinadas surpresas. A traça dos sertanejos colhia-os mesmo naquele transe doloroso. | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 78 | ||
do_obra_001_146 | Na de 26 houvera quatro ataques violento s; na de 27, dezoito; nas dos dias subseqüentes, um único, porque já
não intermitiram, prolongando-se, contínuos, das seis da tarde às cinco do amanhecer.
Não visavam rasgar um caminho à fuga. Empenhando-se todos ao sul atendiam à conquista momentânea das | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 75 | ||
do_obra_001_147 | permaneciam de pé, oscilantes e arrombados, livres ainda das chamas, despontava ante o visitante atônito um
traço pungente da vida angustiosa que se atravessara ali dentro.
Dizia-o, mais expressiva, a nudez dos cadáveres. Estavam em todas as posições, estendidos, de supino, face para
os céus; desnudos os peitos, o... | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 99 | ||
do_obra_001_148 | deslocando-se para a linha de baionetas que se cosia à barranca lateral do rio, na face sul da praça.
Era, como se vê, um arrochar vigoroso — em que colaborariam os demais corpos guarnecendo as posições
recém-conquistadas e o acampamento. Interviriam na ação à medida das circunstâ ncias, ou quando tombassem | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 78 | ||
do_obra_001_149 | com os entraves únicos de um passo de cargas sobre ruínas. Fizeram-se as ruínas.
Via-se a transmutação do trecho torturado: tetos em desabamentos, prensando, certo, os que se lhes acolhiam por
baixo, nos cômodos estreitos; tabi ques esboroando, voando em estilhas e terrões; e aqui e ali, em começo | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 75 | ||
do_obra_001_150 | lhes bastavam 6 mil mannlichers e 6 mil sabres; e o golpear de 12 mil braços, e o acalcanhar de 12 mil coturnos;
e 6 mil revóveres; e vinte canhões, e milhares de granadas, e milhares de schrapnels; e os degolamentos, e os
incêndios, e a fome, e a sede; e dez meses de combates, e cem dias de canhoneio contínuo; e o e... | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 112 | ||
do_obra_001_151 | apenas os acontecimentos de que fui espectador ou sobre os quais tive informações seguras.”
II — “ ... desabrigadas de todo ante e acidez corrosiva dos aguaceiros tempestuosos...” (pág. 18).
Viu-se nesta frase uma inexatidão e um dos imaginosos traços do meu apedrejado nefelibatismo científico ( * ).
( * ) Rev... | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 126 | ||
do_obra_001_152 | considerações que alinhei acerca da nossa gênese, se compr eende que de fato não temos unidade de raça, admite
também que nos vários caldeamentos operados eu encontrei no tipo sertanejo uma subcategoria étnica já formada
(pág. 108) liberta pelas condições históricas (pág. 112) das exigências de uma civilização de emp... | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 83 | ||
do_obra_001_153 | Nem precisávamos exemplificar o predomínio permanente das causas particulares ou secundárias na constituição
climática de qualquer pais. De Santos, cujo clima equatorial é uma anomalia em latitude superior à do trópico, à
Groelândia coberta de gelos fronteira às paragens benignas da Noruega, encontraríamos esplêndido... | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 82 | ||
do_obra_001_154 | inteiramente outros.
Não estão, nestes exemplos, que multiplicaríamos se quiséssemos, palmares violações das leis gerais dos climas?
V — Uma contradição apontada pelo mesmo critico; diz ele:
Assim, à medida que aprofunda, o observador se aproxima da matriz de todo definida, do local. Ora o nosso cas... | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 101 | ||
do_obra_001_155 | o caipira, no Sul, e o tabaréu, ao Norte — onde já se tornam raros o branco, o negro e o índio puros. A
mestiçagem generalizada produz entretanto, ainda todas as variedades das dosagens díspares do cruzamento.
Mas, à medida que prosseguimos, estas últimas se atenuam.
Vai-se notando maior uniformidade de caracteres f... | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 162 | ||
do_obra_001_156 | catanduva ( mato mau, áspero, doente ) é o de uma ma ta enfezada e dura, tracei a frase com batida porque a
flórula indicada, diversa da que prepondera no sertão, me despontou aos olhos realmente com a última aparência.
VIII — Notaram-se, em todas as páginas, termos que vários críticos caracterizaram como invençõe... | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 81 | ||
do_obra_016_010 | Ernesto estava alegre como das outras vezes.
— Ainda bem! disse-lhe ela apenas pôde conversar com ele no sofá.
— Por quê?
— Porque o vejo mais alegre.
— Oh! é o meu gênio que me faz assim, não a minha estrela. A natureza foi
mãe comigo; deu-me esta máscara.
— Sabe de uma coisa? perguntou Fernanda sorrindo.
— O que é?
—... | dominio_publico | null | null | Quem Boa Cama Faz... | Machado de Assis | 105 | ||
do_obra_016_011 | Porque o dominador, se não estimulava, tolerava o amor livre. Nos conselhos
diários não cogitava da vida conjugal, traçando normas aos casais ingênuos. E era
lógico. Contados os últimos dias do mundo, fora malbaratá -los agitando preceitos
vãos, quando o cataclismo iminente viria, em breve, apagar para sempre as uniões... | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 100 | ||
do_obra_016_012 | Copiemos ao acaso alguns:
“Sahiu D. Pedro segundo
“Para o reino de Lisboa
“Acabosse a monarquia
“O Brasil ficou atôa !
A República era a impiedade:
“Garantidos pela lei
“Aquelles malvados estão
“Nós temos a lei de Deus
“Elles tem a lei do cão !
“Bem desgraçados são elles
“Pra fazerem a eleição
“Abatendo a lei de D... | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 110 | ||
do_obra_016_013 | O governo demoníaco, porém, desaparecerá em breve:
“D. Sebastião já chegou
“E traz muito regimento
“Acabando com o civil
“E fazendo o casamento !
“O Anti-Cristo nasceu
“Para o Brasil governar
“Mas ahi está o Conselheiro
“Para delle nos livrar!
“ Visita nos vem fazer
“Nosso rei D. Sebastião.
“Coitado daquelle pobre
“Que... | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 85 | ||
do_obra_016_014 | Macete, e fizera voltar outra, de oitenta praças de linha, que seguira até Serrinha;
em 1894, fora, nu Congresso Estadual da Bahia, assunto de calorosa discussão na
qual, impugnando a proposta de um deputado, chamando a atenção dos poderes
públicos para a “parte dos sertões perturbada pelo indivíduo Antônio Consel... | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 81 | ||
do_obra_016_015 | percebida em pequenos grupos deslizando, furtivos, entre os claros das guardas
avançadas. No repentino êxodo lá se foram os próprios doentes, famílias inteiras, ao
acaso, pela noite dentro, dispartindo espavoridos, descampados em fora.
Ora, este fato era um aviso. Uauá, como os demais lugares convizinhos | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 76 | ||
do_obra_016_016 | caracteriza. Não lhes bastavam as cisões remanescentes, nem os assustava uma
situação econômica desesperadora: anelavam avolumar aquelas e tornar a última
insolúvel. E como o exército se erigia, ilogicamente, desde o movimento abolicionista
até à proclamação da República, em elemento ponderador das agitações nacio... | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 81 | ||
do_obra_016_017 | Cunha Matos, marchando de costado, levando no centro o respectivo comboio de
munições; 1.a a Divisão do 2.° Regimento, sob a imediata direção de Salomão da
Rocha; ala esquerda do 7.°, dirigida pelo capitão Alberto Gavião Pereira Pinto; 2 a
Divisão de Artilharia, do 1.° tenente Marcos Pradel de Azambuja; ala direita do ... | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 81 | ||
do_obra_016_018 | aparecendo, indecifrável, como uma página truncada e sem número das nossas
tradições. Só sugeria um conceito — e é que, assim como os estratos geológicos
não raro se perturbam, invertidos, sotopondo -se uma formação moderna a uma
formação antiga, a estratificação moral dos povos por sua vez também se baralha, e | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 78 | ||
do_obra_016_019 | Maria da Silva Teles; 34.°, 35.° e 40.o, a 5.a Brigada sob o comando do coronel
Julião Augusto de Serra Martins; 26.°, 32.° da Infantaria e uma divisão de artilharia,
a 6.a Brigada sob o comando do coronel Donaciano de Araújo Pantoja.
A 1.a, 2a e 3a Brigadas formaram uma coluna, sob o comando do general João | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 77 | ||
do_obra_016_020 | O grande movimento de armas de março fora uma ilusão. Não tínhamos
exército, na significação real do termo, em que se inclui, mais valiosa que a
existência de alguns milhares de homens e espingardas, uma direção administrativa,
técnica e tática, definida por um Estado-maior enfeixando todos os serviços, desde o | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 78 | ||
do_obra_016_021 | Dali seguiram, batalhão por batalhão, iludindo em transporte parcial a
carência de viaturas, para Monte Santo, onde a situação não variou. Continuaram
até meados de junho os mesmos exercícios e a mesma existência aleatória de mais
de 3 mil homens em armas, dispostos aos combates mas impotentes para a partida
e — r... | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 98 | ||
do_obra_016_022 | estrada, tendo ao encalço a artilharia, que a atropelava impaciente. O ingente
esforço desenvolvido pelos distintos e patriotas republicanos, empenhados neste
pesadíssimo labor, não impediu que a noite os viesse surpreender, antes de chegar
à espécie de clareira denominada pelo povo do lugar de Queimadas, onde esta | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 79 | ||
do_obra_016_023 | abertos pelo Vaza -Barris em remotas idades, quando incomparavelmente maior
efluía talvez de grande lago que cobria a planície rogada de Canudos. A massa de
águas, então contida pelos acidentes mais possantes que ondulavam da favela ao
Caipã, nos dois quadrantes de SO e NO e deste último espraiando -se pelo de NE, | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 78 | ||
do_obra_016_024 | major Nonato de Seixas, enquanto os dois outros, o 34.° e o 35.°, se dispunham de
reforço. O general Savaget, prevenido do encontro, adiantara -se acompanhando a
4.a Brigada. Estacou a quatrocentos metros da vanguarda, a fim de aguardar a 6.a
Divisão de Artilharia e os comboios marchando ainda cerca de três quilômetros... | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 80 | ||
do_obra_016_025 | Planeou-a: “A 5.a Brigada, que se ma ntinha desde o princípio nas suas
posições por entre as caatingas, devia carregar pelo flanco esquerdo e pelo leito do
rio, a fim de desalojar o inimigo dos cerros centrais e outeiros, que ficam desse lado,
e a 4.a pelo flanco direito devendo, antes, desenvolver -se em linha, ao sai... | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 81 | ||
do_obra_016_026 | insepultos, companheiros pela manhã ainda entusiastas e vigorosos:
— Thompson Flores, vitimado no comando fatídico do 7.° de Infantaria;
Tristão de Alencar Sucupira, que chegara agonizante com a 2.a coluna; Nestor Vilar,
capitão fiscal do 2.° Regimento, que caíra com mais de dois terços da oficialidade de | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 76 | ||
do_obra_016_027 | Daquela data ao termo da campanha a tropa iria viver em permanente alarma.
Começou desde logo um regímen deplorável de torturas. Ao amanhecer de
29 verificaram -se insuficientes as munições de boca, para a ração completa das
praças da 1.a coluna, já abatidas por uma semana de alimentação reduzida.
A 2.a, embora mais be... | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 92 | ||
do_obra_016_028 | qualquer ação contornante, facultaria, depois, a investida final numa concentração
contínua, que o próprio campo de combate indicava, definindo -se como setor
amplíssimo de raios convergentes na praça das igrejas. Mas esta concepção tática,
aliás rudimentar, não foi ainda efetuada. As brigadas auxilares, ao chegarem | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 79 | ||
do_obra_016_029 | a oeste — abrangendo todo o quadrante em longura mínima de dois quilômetros,
caiu-lhe em cima, convergente, uma fuzilaria tremenda. As brigadas, entretanto,
avançaram ainda. Mas incoerentemente, num dissipar improdutivo de valor e de
balas, sem a retitude de um plano, sem uniformidade na marcha. No torvelinho das | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 78 | ||
do_obra_016_030 | profunda, que drenava os flancos da Favela, na extrema esquerda, entrincheirou -se
o 5.° de Polícia, distendendo-se até à borda direita do Vaza-Barris onde se ligava ao
26.° de Infantaria. Este, por sua vez, desdobrando -se, ia unir -se na margem oposta
ao 5.° de linha, junto ao cemitério. Seguiam -se sucessivamente: o... | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 84 | ||
do_obra_016_031 | feridas; 2 oficiais e 22 praças mortas; 31.°: 7 oficiais e 99 praças feridas; 4 oficiais e
48 praças mortas; 32.°: 6 oficiais e 62 praças feridas; 4 oficiais e 31 praças mortas;
32.°: 10 oficiais e 65 praças feridas; 1 oficial e 15 praças mortas; 34.°: 4 oficiais e 18
praças feridas; 7 praças mortas; 35.°: 4 oficiais e... | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 109 | ||
do_obra_016_032 | Apesar da hora matinal, como encontrassem água bastante numa cacimba
próxima, profundíssima e escura, lembrando a boca de uma mina, acamparam. Era
a última escala. No outro dia atingiram o arraial. A paragem morta reanimou -se
então, de súbito, cheia de tendas e barracas, armas em sarilhos, e a animação | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 76 | ||
do_obra_016_033 | engenharia e famoso naquelas façanhas, adivinhou -lhe o intento Achegou -se com o
braço. Diminuto na altura, entretanto, custou a enleá -lo ao pescoço do condenado.
Este, porém, auxiliou -o tranqüilamente; desceu o nó embaralhado; enfiou -o pelas
próprias mãos, jugulando-se...
Perto, um tenente do estado -maior de prim... | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 87 | ||
do_obra_016_034 | outros, rompendo desesperadamente contra os tiroteios, afrontando-se com a morte.
Ou, o que em geral sucedia, deixavam que se atreguasse a repulsa enérgica e
mortífera e se descuidassem os soldados vigilantes. Mas estes, conhecendo -lhes os
ardis, sabiam que tornariam outra vez em breve. Aguardavam -nos, pontarias
imóv... | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 120 | ||
do_obra_016_035 | companheiros moribundos, arremetendo com a barreira infernal que os devorava.
Um único às vezes escapava, às carreiras. Transpunha a barranca de um
salto, e perdia-se nos escombros do casario, levando aos companheiros alguns litros
de água que custavam hecatombes. E era um líquido suspeito, contaminado de | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 76 | ||
do_obra_016_036 | apedrejado nefelibatismo científico ( * ).
( * ) Revista do Centro de Letras e Artes, de Campinas, n.o 2, 31 de janeiro de 1903.
Ora, escasseando-me o tempo para atar autores, limito-me a apontar a
página 168 da Geologia de Contejean sobre a erosão das rochas:
“des actions physiques et chimiques par les eaux pluviales ... | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 103 | ||
do_obra_016_037 | transcorridas poucas dezenas de léguas habitats inteiramente outros.
Não estão, nestes exemplos, que multiplicaríamos se quiséssemos, palmares
violações das leis gerais dos climas?
V — Uma contradição apontada pelo mesmo critico; diz ele:
“... vejo à pág. 70 os dizeres categóricos: Não temos unidade de raça. Não a | dominio_publico | null | null | Os Sertões | Euclides da Cunha | 78 | ||
do_obra_017_007 | O doutor estava pensativo; compreendia agora as palavras incoerentes da moça ao
piano. A narração de Antônia era verossímil. Cumpria salvar a moça levando-a para fora
dali. Para isso o casamento era o melhor meio.
— Tens razão, boa Antônia, disse ele, salvaremos Celestina; descansa em mim.
— Jura?
— Juro.
Antônia bei... | dominio_publico | null | null | O anjo Rafael | Machado de Assis | 97 | ||
do_obra_017_008 | extremidade do jardim.
— Diz então que estimava encontrar-me?
— É verdade, coronel; peço-lhe uma informação.
— E eu vou dar-lhe.
— Sabe o que é?
— Adivinho.
— Tanto melhor; evita-me um discurso.
— Quer saber quem é a mãe de Celestina?
— Em primeiro lugar.
— Pois que mais?
— Quero saber depois qual a razão desta loucura... | dominio_publico | null | null | O anjo Rafael | Machado de Assis | 107 | ||
do_obra_017_009 | chamar o major à razão vir contar-lhe isso tudo. Vim, com efeito, e expus-lhe o que sabia.
— E ele?
— Não acredita; e quando parece ir-se convencendo das minhas asseverações, volta-lhe
a idéia de que ele não é casado, porque os anjos não casam; enfim, o mais que o senhor
sabe.
— Então está perdido?
— Creio que sim.
—... | dominio_publico | null | null | O anjo Rafael | Machado de Assis | 111 | ||
do_obra_017_010 | para outro, agitado, proferindo palavras incoerentes, com o olhar desvairado.
— Que tens, Tomás?
— Ainda bem que vieste, disse o velho; sinto-me mal; veio aqui há pouco um anjo buscar-
me; disse-me que eu estava fazendo falta no céu. Creio que me vou embora desta vez.
— Deixa-te disso, respondeu o coronel; foi caçoada ... | dominio_publico | null | null | O anjo Rafael | Machado de Assis | 88 | ||
do_obra_017_011 | Mas feito o enterro era preciso dizê-lo à filha.
— Celestina, disse-lhe o coronel, tu vais casar brevemente com o dr. Antero.
— Mas quando?
— Daqui a dias.
— Dizem-me isso há que tempo!
— Pois agora é de uma vez. Teu pai...
— Que tem?
— Teu pai não volta por enquanto.
— Não volta? disse a moça. Pois onde foi ele?
— Teu... | dominio_publico | null | null | O anjo Rafael | Machado de Assis | 123 | ||
do_obra_017_012 | pormenores, o coronel perguntou ao doutor:
— Ora, diga-me; não crê agora que haja uma providência?
— Sempre acreditei.
— Não minta; se acreditasse não teria recorrido ao suicídio.
— Tem razão, coronel; dir-lhe-ei até: eu era um pouco de lodo, hoje sinto-me pérola.
— Compreendeu-me bem; eu não queria aludir à fortuna qu... | dominio_publico | null | null | O anjo Rafael | Machado de Assis | 87 | ||
do_obra_017_013 | impressão que causaria a minha morte; já soube quanto quisera saber.
— Oh! disse um dos presentes, foi profunda; pergunta ao César.
— Quando soubemos do desastre, acudiu César, não quisemos crer; corremos à tua
casa; era infelizmente verdade.
— Que marreco! exclamava um terceiro, fazer-nos chorar por ele, quando talve... | dominio_publico | null | null | O anjo Rafael | Machado de Assis | 81 | ||
do_obra_007_000 | PANÓPLIAS
Olavo Bilac
Índice - Poesias
A morte de Tapir
A Gonçalves Dias
Guerreira
Para a Rainha Dona Amélia, de Portugal
A um grande homem
A sesta de Nero
O Incêndio de Roma
O sonho de Marco Antônio
Lendo a Ilíada
Messalina
A ronda noturna
Delenda Carthago!
A Morte de Tapir
Uma coluna de ouro e púrpuras ondeantes
... | dominio_publico | null | null | Panóplias | Olavo Bilac | 341 | ||
do_obra_007_001 | De uma tribo contrária a onda medonha e bruta!
Onde um pulso que, tal como seu pulso, à luta
Costumado, um por um, ao chão arremessasse
Dez combatentes? Onde um arco, que atirasse
Mais célere, a zunir, a fina flecha ervada?
Quanta vez, a vagar na floresta cerrada,
Peito a peito lutou com as fulvas onças bravas,
E as on... | dominio_publico | null | null | Panóplias | Olavo Bilac | 519 | ||
do_obra_007_002 | E Tapir caminhava... Ante ele agora um rio
Corria; e a água também, ao crebro
Da corrente, a rolar, gemia ansiosa e clara:
- “Tapir! Tapir! Tapir! Que é da veloz igara,
Que é dos remos dos teus? Não mais as redes finas
Vêm na pesca sondar-me as águas cristalinas.
Ai! não mais beijarei os corpos luxuriantes,
Os curvos s... | dominio_publico | null | null | Panóplias | Olavo Bilac | 569 | ||
do_obra_007_003 | E num longo soluço a voz misteriosa
Expirou... Caminhava a noite silenciosa,
E era tranqüilo o céu; era tranqüila em roda,
Imersa em plúmbeo sono, a natureza toda.
E, no tope do monte, era de ver erguido
O vulto de Tapir... Inesperado, um ruído
Seco, surdo soou, e o corpo do guerreiro
De súbito rolou pelo despenhadeiro... | dominio_publico | null | null | Panóplias | Olavo Bilac | 374 | ||
do_obra_007_004 | Um rude resplendor, de rude brilho, touca
E nimba o teu escudo, em que as quinas e a esfera
Guardam, ó Portugal! a tua glória austera,
Feita de louco heroísmo e de aventura louca.
Ver esse escudo é ver a Terra toda, pouca
Para a tua ambição; é ver Afonso, à espera
Dos mouros, em Ourique; e, em redor da galera
Do Gama, ... | dominio_publico | null | null | Panóplias | Olavo Bilac | 415 | ||
do_obra_007_005 | Leva nas dobras de seu manto a morte.
Implacável, violento,
Rijo o vergasta o latego do vento.
Das estrelas, caindo
Sobre ele em vão do claro firmamento
Batem os raios límpidos, luzindo...
Nada reflete, nada!
Com o surdo estrondo espanta a ave assustada;
É turvo, é triste agora.
Onde a vida de outrora sossegada?
O... | dominio_publico | null | null | Panóplias | Olavo Bilac | 387 | ||
do_obra_007_006 | Raiva o incêndio. A ruir, soltas, desconjuntadas,
As muralhas de pedra, o espaço adormecido
De eco em eco acordando ao medonho estampido,
Como a um sopro fatal, rolam esfaceladas.
E os templos, os museus, o Capitólio erguido
Em mármor frígio, o Foro, as erectas arcadas
Dos aquedutos, tudo as garras inflamadas
Do incênd... | dominio_publico | null | null | Panóplias | Olavo Bilac | 458 | ||
do_obra_007_007 | Se os mundos todos seu olhar encerra?!
Ele é valente e ela o subjuga e o doma...
Só Cleópatra é grande, amada e bela!
Que importa o império e a salvação de Roma?
Roma não vale um só dos beijos dela!...
..................................................
Assim medita. E alucinado, louco
De pesar, com a fadiga em vão luta... | dominio_publico | null | null | Panóplias | Olavo Bilac | 741 | ||
do_obra_007_008 | Dentro é tudo mudez. Flébil murmura,
De espaço a espaço, entanto, a voz do vento:
E há um rasgar de sudários pela altura,
Passo de espectros pelo pavimento...
Mas, de súbito, os gonzos das pesadas
Portas rangem... Ecoa surdamente
Leve rumor de vozes abafadas.
E, ao clarão de uma lâmpada tremente,
Do claustro sob as tá... | dominio_publico | null | null | Panóplias | Olavo Bilac | 488 | ||
do_obra_007_009 | Cobrindo espáduas deslumbrantes,
Cercando a carnação de seios palpitantes
Como véus de veludo, e provocando beijos,
Excitaram paixões e lúbricos desejos
Essas tranças da cor das noites tormentosas...
Quantos lábios, ardendo em sedes luxuriosas,
As tocaram outrora entre febris abraços!..
Tranças que tanta vez - frágeis ... | dominio_publico | null | null | Panóplias | Olavo Bilac | 547 | ||
do_obra_007_010 | O invasor turbilhão não deu vitorioso,
Sem que deixasse atrás um rastro pavoroso
De feridos. No ocaso, o sol morria exangue:
Como que refletia o firmamento o sangue
Que tingia de rubro a lâmina brilhante
Das espadas. Então, houve um supremo instante,
Em que, cravando o olhar no intrépido africano
Asdrúbal, ordenou Cipi... | dominio_publico | null | null | Panóplias | Olavo Bilac | 575 | ||
do_obra_007_011 | III
Fraco e medroso, o fogo
À branda viração tremeu um pouco, e logo,
Inda pálida e tênue, ergueu-se. Mais violento,
Mais rápido soprou por sobre a chama o vento:
E o que era labareda, agora ígnea serpente
Gigantesca, estirando o corpo, de repente
Desenrosca os anéis flamívomos, abraça
Toda a cidade, estala as pedras, ... | dominio_publico | null | null | Panóplias | Olavo Bilac | 327 | ||
do_obra_016_038 | onde a perfeição é maior é no emprego do zero. O valor do zero é, em si mesmo,
nada; mas o ofício deste sinal negativo é justamente aumentar. Um 5 sozinho é um
5; ponha-lhe dous 00, é 500. Assim, o que não vale nada faz valer muito, cousa que
não fazem as letras dobradas, pois eu tanto aprovo com um p como com dous pp. | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 80 | ||
do_obra_016_039 | UM SUBSTITUTO
Expus a Capitu a idéia de José Dias. Ouviu-me atentamente. e acabou triste.
—Você indo, disse ela, esquece-me inteiramente.
—Nunca!
—Esquece. A Europa dizem que é tão bonita, e a Itália principalmente. Não é
de lá que vêm as cantoras? Você esquece-me, Bentinho. E não haverá outro meio?
D. Glória está mort... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 98 | ||
do_obra_016_040 | mocinho órfão, fazê-lo ordenar à sua custa, está dado um padre ao altar, sem que
você...
—Entendo, entendo, é isso mesmo.
—Não acha? continuou ele. Consulte sobre isto o protonotário: ele lhe dirá se
não é a mesma cousa, ou eu mesmo consulto, se quer e se ele hesitar, fala-se ao
Sr. bispo.
Eu, refletindo:
—Sim, parece ... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 92 | ||
do_obra_016_041 | seminarista que ouvir por toda a parte latim e Escritura. A verdade que Capitu, que
não sabia Escritura nem latim, decorou algumas palavras, como estas, por exemplo:
“Sentei-me à sombra daquele que tanto havia desejado.“ Quanto às de S. Pedro,
disse-me no dia seguinte que estava por tudo, que eu era a única renda e o ú... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 81 | ||
do_obra_016_042 | por ocasião da nossa última visita a Andaraí, e disse-lhe a razão do segredo.
—Quando contei isto a Sanchinha, concluiu ele, ficou espantada:
“Como é que Capitu pode economizar, agora que tudo está tão caro?“—“Não
sei, filha; sei que arranjou dez libras.“
—Vê se ela aprende também.
—Não creio; Sanchinha não é gastadeir... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 88 | ||
do_obra_016_043 | ser e seria minha mãe. Mas a primeira parte se trocou por intervenção do tio Cosme,
que, ao ver a criança, disse-lhe entre outros carinhos:
—Anda, toma a bênção a teu padrinho, velhaco.
E, voltando-se para mim:
—Não desisto do favor; e há de ser depressa o batizado, antes que a minha
doença me leve de vez. | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 76 | ||
do_obra_016_044 | outro de espada alçada, e todos os seus amores iam para o de espada alçada. Um
dia (ingênua idade!), perguntou-me impaciente:
— Mas, papai, por que é que ele não deixa cair a espada de uma vez?
— Meu filho, é porque é pintado.
— Mas então por que é que ele se pintou?
Ri-me do engano e expliquei-lhe que não era o soldad... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 85 | ||
do_obra_016_045 | sucessos ocorridos, e da tal ou qual simpatia ao rato que acho em mim; teve graça.
Não me pesa dizê-lo; os que amam a natureza como ela quer ser amada, sem
repúdio parcial nem exclusões injustas, não acham nela nada inferior. Amo o rato,
não desamo o gato. Já pensei em os fazer viver juntos, mas vi que são | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 76 | ||
do_obra_016_046 | maneiras dos outros; e para que não fosse mais longe...
—Também não vamos mortificá-lo. Sempre há tempo de corrigi-lo.
—Há, vou ver. Você também não era assim, quando se zangava com
alguém...
—Quando me zangava, concordo; vingança de menino.
—Sim, mas eu não gosto de imitações em casa.
—E naquele tempo gostavas de mim?... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 87 | ||
do_obra_016_047 | enchendo e colorindo aos poucos, e a figura entra a ver, sorrir, palpitar, falar quase,
até que a família pêndula o quadro na parede, em memória do que foi e já não pode
ser. Aqui podia ser e era. O costume valeu muito contra o efeito da mudança; mas a
mudança fez-se, não à maneira de teatro, fez-se como a manhã que ap... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 81 | ||
do_obra_016_048 | que querem sair. O ser sexta-feira creio que foi acaso, mas também pode ter sido
propósito; fui educado no terror daquele dia. ouvi cantar baladas, em casa, vindas da
roça e da antiga metrópole, nas quais a sexta-feira era o dia de agouro. Entretanto,
não havendo almanaques no cérebro, é provável que a idéia não batess... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 102 | ||
do_obra_016_049 | cor escura, as mesmas asas trépidas, e posto avoasse com elas, era como se fosse
fixa; eu a levava na retina, não que me encobrisse as cousas externas, mas via-as
através dela, com a cor mais pálida que de costume, e sem se demorarem nada.
Não me lembra bem o resto do dia. Sei que escrevi algumas cartas, comprei | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 78 | ||
do_obra_016_050 | ditas duas vezes com tal resolução que a fizeram afrouxar. Após alguns instantes,
disse-me ela:
—Só se pode explicar tal injúria pela convicção sincera; entretanto você que
era tão cioso dos menores gestos, nunca revelou a menor sombra de desconfiança.
Que é que lhe deu tal idéia? Diga,— continuou vendo que eu não resp... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 83 | ||
do_obra_016_051 | ferida. Uma vez, porém, que a senhora insiste, aqui vai o que lhe posso dizer, e é
tudo.
Não disse tudo; mas pude aludir aos amores de Escobar sem proferir-lhe o
nome. Capitu não pôde deixar de rir, de um riso que eu sinto não poder transcrever
aqui; depois, em um tom juntamente irônico e melancólico:
—Pois até os defu... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 91 | ||
do_obra_016_052 | fantasmagoria de alucinado; mas a entrada repentina de Ezequiel, gritando:—
“Mamãe! mamãe! é hora da missa!“ restituiu-me à consciência da realidade. Capitu e
eu, involuntariamente, olhamos para a fotografia de Escobar, e depois um para o
outro. Desta vez a confusão dela fez-se confissão pura. Este era aquele; havia po... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 100 | ||
do_obra_016_053 | admite-se...
José Dias assistiu a estas diligências, com grande melancolia. No fim, quando
saímos, disse mal do padre, chamou-lhe meticuloso. Só lhe achava desculpa por
não ter conhecido minha mãe, nem ele nem os outros homens do cemitério.
—Não a conheceram; se a conhecessem mandariam esculpir santíssima.
CAPÍTULO CXL... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 104 | ||
do_obra_016_054 | UMA PERGUNTA TARDIA
Assim chorem por mim todos os olhos de amigos e amigas que deixo neste
mundo, mas não é provável. Tenho-me feito esquecer. Moro longe e saio pouco.
Não é que haja efetivamente ligado as duas pontas da vida. Esta casa do Engenho
Novo, conquanto reproduza a de Mata-cavalos, apenas me lembra aquela, e ... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 81 | ||
do_obra_016934_000 | Tudo isso era dito com volubilidade, confiança e doçura. Calçadas as luvas,
pôs o mantelete, e a sobrinha ajudou-a, falando também, jurando que, apesar de
tudo, adorava o Conrado. Conrado era o marido, advogado desde 1874. D. Paula
saiu, levando muitos beijos da moça. Na verdade, não podia chegar mais a ponto. | dominio_publico | null | null | D. Paula | Machado de Assis | 77 | ||
do_obra_016934_001 | rumor das vozes, e teve o poder de representar, com o quadro, um pouco das
sensações dela; e pediu-lhas com interesse, astutamente.
—Não sei o que senti, acudiu a moça cuja comoção crescente ia desatando a
língua; não me lembro dos primeiros cinco minutos. Creio que fiquei séria; em todo o
caso, não lhe disse nada. Par... | dominio_publico | null | null | D. Paula | Machado de Assis | 92 | ||
do_obra_016923_000 | ver se passa um tílburi.
— É natural que não passe, e nesse caso ofereço-lhe um lugar no meu
coupé. Venha.
— Perdão; mas é um incômodo...
— Ora, incômodo! é um prazer. Vou deixá-lo em casa. Onde mora?
— Rua da Misericórdia no...
— Bem, suba.
Estêvão hesitou um pouco; mas não podia deixar de subir sem ofender o | dominio_publico | null | null | A Mulher de Preto | Machado de Assis | 77 | ||
do_obra_016923_001 | é coisa que se despreze, acolhe-se como um presente dos deuses.
— Dos deuses! disse Meneses rindo; já vejo que é pagão.
— Alguma coisa, é verdade; mas no bom sentido, respondeu Estêvão rindo
também. Minha vida assemelha-se um pouco à de Ulisses...
— Tem ao menos uma Ítaca, sua pátria, e uma Penélope, sua esposa.
— Nem ... | dominio_publico | null | null | A Mulher de Preto | Machado de Assis | 90 | ||
do_obra_016923_002 | Quantos anos tem?
— Vinte e quatro.
— Olhe lá; podia ser meu filho. Tem seus pais vivos?
— Morreram há quatro anos.
— Lembra-me haver dito que era solteiro...
— É verdade.
— De maneira que os seus cuidados são todos para a ciência?
— É a minha esposa.
— Sim, a sua esposa intelectual; mas essa não basta a um homem como ... | dominio_publico | null | null | A Mulher de Preto | Machado de Assis | 80 | ||
do_obra_016923_003 | compreendendo a observação do deputado.
— Sim, continuou Meneses; você esconde-me um segredo...
— Eu?
— É verdade: e um segredo de amor.
— Ah!... disse Estêvão; por que diz isso?
— Reparei há pouco que, ao passo que os mais conversavam em política,
você pensava em uma mulher, e mulher... lindíssima...
Estêvão compreend... | dominio_publico | null | null | A Mulher de Preto | Machado de Assis | 123 | ||
do_obra_016923_004 | Meneses olhou fixamente para Estêvão, sorriu, abanou a cabeça e disse:
— Olhe, deixe a descrença para os que já sofreram as decepções; o senhor
está moço, não conhece ainda nada desse sentimento. Na sua idade ninguém é
cético... Demais, se a mulher é bonita, eu aposto que daqui a pouco há de dizer-me | dominio_publico | null | null | A Mulher de Preto | Machado de Assis | 75 | ||
do_obra_016923_005 | libelo ou carta de namoro?
— Nem uma nem outra coisa, respondeu Estêvão secamente.
— Dou-te uma notícia.
— Que é?
— Entrei na literatura.
— Ah!
— É verdade, venho ler-te a primeira comédia.
— Deus me livre! disse Estêvão levantando-se.
— Hás de ouvir, meu amigo; ao menos algumas cenas; dar-se-á caso que
não me protejas... | dominio_publico | null | null | A Mulher de Preto | Machado de Assis | 100 | ||
do_obra_016923_006 | CENA I
CÉSAR (entrando pela direita); JOÃO (pela esquerda)
CÉSAR — Fechada! A sinhá já se levantou?
JOÃO — Já, sim senhor; mas está incomodada.
CÉSAR — O que tem?
JOÃO — Tem... está incomodada
CÉSAR — Já sei. (Consigo) “Os incômodos do costume”. (A JOÃO) Qual é então o
remédio hoje?
JOÃO — O remédio? (Depois de uma pau... | dominio_publico | null | null | A Mulher de Preto | Machado de Assis | 89 | ||
do_obra_016923_007 | A criança, sem nada compreender, atirou-se aos braços de Estêvão. O moço
deu-lhe um beijo na testa, e disse para a viúva:
— Se hesitei não foi porque duvidasse do que a senhora acaba de contar-
me; foi porque a missão é espinhosa; mas prometo que hei de cumpri-la.
CAPÍTULO IX
Estevão saiu da casa da viúva agitado por d... | dominio_publico | null | null | A Mulher de Preto | Machado de Assis | 107 | ||
do_obra_016923_008 | Oliveira correspondeu ao abraço, e quando pôde desligar-se do médico,
disse-lhe:
— Obrigado, meu amigo; estas manifestações são muito honrosas para
mim; sempre te conheci como um perfeito juiz literário, e a prova que acabas de dar-
me é uma consolação e uma animação; consola-me do que tenho sofrido, anima-me | dominio_publico | null | null | A Mulher de Preto | Machado de Assis | 77 | ||
do_obra_016923_009 | Que supõe então?
— Não suponho nada. Imagino que...
— Pede dramas a um homem político?
— Por que não?
— Eu lhe digo. Sou político e não sou. Não entrei na vida pública por
vocação; entrei como se entra em uma sepultura: para dormir melhor. Por que o fiz?
A razão é o drama de que me fala.
— Uma mulher, talvez...
— Sim, ... | dominio_publico | null | null | A Mulher de Preto | Machado de Assis | 99 |
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