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|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
do_obra_001977_000 | perguntou pela dele, respondeu com doçura e pausa:
— Maravilha, minha senhora.
— O pior é não estar cá o Calisto! suspirou o escrivão.
— Ele disse mesmo que vinha?
— Disse; ainda ontem foi ao cartório, de propósito, avisar-me de que viria
tarde, mas que contasse com ele: tinha de ir a uma brincadeira na rua da | dominio_publico | null | null | O Diplomático | Machado de Assis | 79 | ||
do_obra_001977_001 | verificar alguma coisa.
— Já tem duas quadras, cochichou ele.
— Duas, não; tenho três.
— Três, é verdade, três. Escute...
— E o senhor?
— Eu duas.
— Que duas o quê? São quatro.
Eram quatro; ela mostrou-lhas inclinada, roçando quase a orelha pelos
lábios dele; depois, fitou-o rindo e abanando a cabeça: “O senho... | dominio_publico | null | null | O Diplomático | Machado de Assis | 83 | ||
do_obra_001972_000 | uma das causas prováveis da desconsolação de uns e dos sarcasmos de
todos. E dizia-me: — Escuta, nem divinizar o dinheiro, nem também bani-
lo; não vamos crer que ele dá tudo, mas reconheçamos que dá alguma cousa
e até muita cousa, — este relógio, por exemplo. Combatamos pela nossa
Quintília, minha ou tua, mas prova... | dominio_publico | null | médio | A Desejada das Gentes | Machado de Assis | 89 | ||
do_obra_001972_001 | indiferença; tratávamos de enganar um ao outro e dissimular o que
sentíamos. Foi assim que as nossas relações se dissolveram, no fim de seis
meses, sem ódio, nem luta, nem demonstração externa, porque ainda nos
falávamos, onde o acaso nos reunia; mas já então tínhamos banca separada.
— Começo a ver uma pontinha do ... | dominio_publico | null | médio | A Desejada das Gentes | Machado de Assis | 100 | ||
do_obra_001972_002 | a trazê-la ao pé de si, como uma muleta da velha alma aleijada, que temia
perdê-la inteiramente.
— Não seria essa a causa da isenção sistemática da moça?
— Vai ver que não.
— O que noto é que o senhor era mais teimoso que os outros. . .
— ... Iludido, a princípio, porque no meio de tantas candidaturas | dominio_publico | null | médio | A Desejada das Gentes | Machado de Assis | 76 | ||
do_obra_001972_003 | carta dela nesse sentido; e declarei que era tal a minha obediência e o meu
amor, que cedia, mas de má vontade, porque, depois do que se passara entre
nós, ia sentir-me humilhado. Risquei a palavra ridículo, já escrita, para poder
ir vê-la sem este vexame; bastava o outro.
— Aposto que seguiu atrás da carta? É o qu... | dominio_publico | null | médio | A Desejada das Gentes | Machado de Assis | 88 | ||
do_obra_001973_000 | pediu licença para sair, e saiu.
— Cuidado com os capoeiras! disse-lhe o dono da casa, rindo-se.
O pobre-diabo saiu de lá mortificado, humilhado, mastigando a custo o
desdém, forcejando por esquecê-lo, explicá-lo ou perdoá-lo, para que no
coração só ficasse a memória do benefício; mas o esforço era vão. O | dominio_publico | null | null | A Causa Secreta | Machado de Assis | 77 | ||
do_obra_001973_001 | caminhou para ali; ia chegando à porta, no momento em que Maria Luísa
saía aflita.
— Que é? perguntou-lhe.
— O rato! O rato! exclamou a moça sufocada e afastando-se.
Garcia lembrou-se que na véspera ouvira ao Fortunado queixar-se de um
rato, que lhe levara um papel importante; mas estava longe de esperar o que
v... | dominio_publico | null | null | A Causa Secreta | Machado de Assis | 98 | ||
do_obra_001884_000 | cumprimento gracioso a Adelaide.
- É minha mulher, disse Azevedo apresentando Adelaide ao recém-chegado.
- Já o suspeitava, respondeu Tito; e aproveito a ocasião para dar-te os meus
parabéns.
- Recebeste a nossa carta de participação?
- Em Valparaíso.
- Anda sentar-te e conta-me a tua viagem.
- Isso é longo, dis... | dominio_publico | null | null | Linha Reta e Linha Curva | Machado de Assis | 92 | ||
do_obra_001884_001 | prefiro...
- Ficar conosco, Azevedo atalhou-o. Está sabido.
- Não tenho essa intenção.
- Mas tenho eu. Hás de ficar.
- Mas se eu já mandei o criado tomar alojamento no Hotel de Bragança...
- Pois manda contra-ordem. Fica comigo.
- Insisto em não perturbar a tua paz.
- Deixa-te disso.
- Fique! disse Adelaide.
-... | dominio_publico | null | null | Linha Reta e Linha Curva | Machado de Assis | 153 | ||
do_obra_001884_002 | perguntou:
- Dá-se isto, Sr. Azevedo? Então faz-se anos nesta casa e não me convidam?
- Mas a chuva? disse Adelaide.
- Ingrata! Bem sabes que não há chuva em casos tais.
- Demais, acrescentou Azevedo, fez-se a festa tão à capucha.
- Fosse como fosse, eu sou de casa.
- É que a lua-de-mel continua apesar de cinco m... | dominio_publico | null | null | Linha Reta e Linha Curva | Machado de Assis | 201 | ||
do_obra_001884_003 | fartura e do melhor.
- Para mim quase que é inútil mandar.
- Por quê?
- Quase nunca saio de casa.
- Nem ao menos irás jantar comigo no dia de ano-bom!
- Oh! com toda a certeza!
- Pois vai... Ah! irá o homem? O Sr. Tito?
- Se estiver cá... e quiseres...
- Pois que vá, não faz mal... saberei contê-lo... Creio que... | dominio_publico | null | null | Linha Reta e Linha Curva | Machado de Assis | 103 | ||
do_obra_001884_004 | fizesse o que fizeste ao outro. Mas eu não posso cuidar dessas cousas...
- Nem ouvindo a preferência do voltarete? Pôr-nos abaixo da dama de
copas! E o ar com que ele diz aquilo! Que calma, que indiferença!
- É mau! é mau!
- Merecia castigo...
- Merecia. Queres tu castigá-lo?
Emília fez um gesto de desdém e disse... | dominio_publico | null | null | Linha Reta e Linha Curva | Machado de Assis | 191 | ||
do_obra_001884_005 | consigo que eu sou um esquisito, um singular, um...
- Um vaidoso, é verdade.
- Sétimo mandamento: não levantar falsos testemunhos.
- Falsos, diz o mandamento.
- Não me dirá em que sou eu vaidoso?
- Ah! a isso não respondo eu.
- Por que não quer?
- Porque... não sei. É uma cousa que se sente, mas que se não pode | dominio_publico | null | null | Linha Reta e Linha Curva | Machado de Assis | 79 | ||
do_obra_001884_006 | muita gente faz, que mérito há nisso? Não nasci para esses trabalhos de
imitação.
- Já uma cousa fez como muita gente.
- Qual foi?
- Prometeu-me ontem esta visita e veio cumprir a promessa.
- Ah! minha senhora, não lance isto à conta das minhas virtudes. Podia não
vir; vim; não foi vontade, foi... acaso.
- Em to... | dominio_publico | null | null | Linha Reta e Linha Curva | Machado de Assis | 115 | ||
do_obra_001884_007 | quiser encontrar a verdade... e há de encontrar.
- Qual! disse Tito abaixando a cabeça e batendo com a bengala na ponta do
pé.
- Posso afirmá-lo, disse Emília.
- Duvido.
- Tenho pena de uma criatura assim, continuou a viúva. Não conhecer o
amor é não conhecer a vida! Há nada igual à união de duas almas que se | dominio_publico | null | null | Linha Reta e Linha Curva | Machado de Assis | 79 | ||
do_obra_001884_008 | criatura, e eu não mudarei... É isto e nada mais.
Emília levantou-se e dirigiu-se para o piano.
- Não aborrece a música? perguntou ela abrindo o piano.
- Adoro-a, respondeu o moço sem se mover; agora quanto aos executantes
só gosto dos bons. Os maus dá-me ímpetos de enforcá-los.
Emília executou ao piano os prelúdi... | dominio_publico | null | null | Linha Reta e Linha Curva | Machado de Assis | 89 | ||
do_obra_001884_009 | de um primoroso havana. Um desses novelos foi desenrolar-se na cara de
Diogo. O velho tossiu e disse a Tito:
- Apre lá, Sr. Tito! É demais!
- O quê, meu caro senhor? perguntou o rapaz.
- Até a fumaça!
- Foi sem reparar. Mas eu não compreendo as suas palavras...
- Eu me faço explicar, disse o velho tomando um ar ... | dominio_publico | null | null | Linha Reta e Linha Curva | Machado de Assis | 90 | ||
do_obra_001884_010 | E os dous seguiram conversando como dous amigos velhos.
- Estou pronto a ouvir a sua explicação.
- Lá vai. Sabe o que eu quero? É que seja franco. Não ignora que eu suspiro
aos pés da viúva. Peço-lhe que não discuta o fato, admita-o simplesmente.
Até aqui tudo ia caminhando bem, quando o senhor chegou a Petrópolis.... | dominio_publico | null | null | Linha Reta e Linha Curva | Machado de Assis | 101 | ||
do_obra_001884_011 | tivesse feito mal algum, entendeu de si para si que me havia de tirar do
lance. Desde então começou a corte...
- Meu caro Sr. Diogo, tudo isso é uma fantasia. Eu não faço a corte a D.
Emília, nem pretendo fazer-lha. Vê-me acaso freqüentar a casa dela?
- Acaba de sair de lá.
- É a primeira vez que a visito.
- Quem... | dominio_publico | null | null | Linha Reta e Linha Curva | Machado de Assis | 99 | ||
do_obra_001884_012 | Tudo por quê? Por ela!
- Mas ela não lhe dá esperanças?
- Eu sei o que é aquela moça! Ora trata-me de modo que eu vou ao sétimo
céu; ora é tal a sua indiferença que me atira ao inferno. Hoje um sorriso,
amanhã um gesto de desdém. Ralha-me de não visitá-la; vou visitá-la,
ocupa-se tanto de mim como de Ganimedes; Ga... | dominio_publico | null | null | Linha Reta e Linha Curva | Machado de Assis | 102 | ||
do_obra_001884_013 | suas tolices. Dê-me a felicidade de vê-lo e admirá-lo.
EMÍLIA
- Mas que é isto?
- Que é isto? Ah! se fosse mais do que isto já eu estava morto! Pude pilhar a
carta, e a tal entrevista não se deu...
- Quando foi escrita a carta?
- Ontem.
- Tranqüilize-se. É capaz de guardar um segredo? O que lhe vou dizer é
grav... | dominio_publico | null | null | Linha Reta e Linha Curva | Machado de Assis | 98 | ||
do_obra_001884_014 | Depois sentando-se e voltando a cara para Diogo:
- Bom dia, disse. Está hoje alegre... Tirou a sorte grande?
- A sorte grande? perguntou Diogo. Tirei... tirei...
- Dormiu bem? perguntou Adelaide a Tito.
- Como um justo que sou. Tive sonhos cor-de-rosa: sonhei com o Sr. Diogo.
- Ah! sonhou comigo? murmurou entre de... | dominio_publico | null | null | Linha Reta e Linha Curva | Machado de Assis | 87 | ||
do_obra_001884_015 | que o devora?
- Qual... Preciso de algumas lições... Se mas quisesse dar?
- Eu? Está sonhando!
- Ah! eu sei que o senhor é forte... É modesto, mas é forte... e até fortíssimo!
Ora, eu sou realmente um aprendiz... Tive há pouco a idéia de desafiá-lo.
- A mim?
- É verdade, mas foi uma loucura de que me arrependi...... | dominio_publico | null | null | Linha Reta e Linha Curva | Machado de Assis | 138 | ||
do_obra_001884_016 | lutar com um mestre, eu simples aprendiz?...
- Mestre de quê?
- Dos amores! Oh! eu sei que é mestre...
- Deixe-se disso... eu não sou nada... o Sr. Diogo, sim; o senhor vale um
urso, vale mesmo dous. Como havia de eu... Ora!... Aposto que teve ciúmes?
- Exatamente.
- Mas era preciso não me conhecer; não sabe das... | dominio_publico | null | null | Linha Reta e Linha Curva | Machado de Assis | 112 | ||
do_obra_001884_017 | dos casados.
- Eu?
- Tu, sim.
- Por quê?
- Mas, dize, é ou não verdade?
- Qual, verdade!
- O que sei, é que uma destas tardes em que adormeceste lendo, não sei que
livro, ouvi-te pronunciar em sonhos, com a maior ternura, o nome de Emília.
- Deveras? perguntou Tito mastigando.
- É exato. Concluí que se sonhava... | dominio_publico | null | null | Linha Reta e Linha Curva | Machado de Assis | 90 | ||
do_obra_001884_018 | rapazes.
- Trago-lhe uma notícia.
- Que notícia? perguntaram-lhe os dous.
- Recebi um bilhete de Emília... Pede-nos que vamos lá amanhã, porque...
- Por quê? perguntou Azevedo.
- Talvez dentro de oito dias se retire para a cidade.
- Ah! disse Tito com a maior indiferença deste mundo.
- Apronta as tuas malas, dis... | dominio_publico | null | null | Linha Reta e Linha Curva | Machado de Assis | 110 | ||
do_obra_001884_019 | Adelaide sorriu ouvindo estas palavras.
Daí a meia hora Tito subiu para o gabinete em que Azevedo tinha os livros.
Ia, dizia, ler as Confissões de Santo Agostinho.
- Que repentina viagem é esta? perguntou Azevedo à sua mulher.
- Tens muito empenho em saber?
- Tenho.
- Pois bem. Olha que é segredo. Eu não sei pos... | dominio_publico | null | null | Linha Reta e Linha Curva | Machado de Assis | 86 | ||
do_obra_001884_020 | grande.
- Agora é a sorte grande, disse Emília.
- Que número é o seu bilhete, minha senhora?
- Número doze, isto é, doze horas que tenho tido o prazer de ter hoje aqui o
Sr. Diogo...
- Doze horas! exclamou Tito voltando-se para o velho.
- Sem que ainda o nosso bom amigo nos contasse uma história...
- Doze horas!... | dominio_publico | null | null | Linha Reta e Linha Curva | Machado de Assis | 121 | ||
do_obra_001884_021 | Ficaram os três.
- Mas então, disse Tito, nem ao menos uma história contou?
- Nenhuma.
Emília lançou um olhar a Diogo como para tranqüilizá-lo. Este, mais calmo
então, lembrou-se do que Adelaide lhe havia dito, e voltou às boas.
- Afinal de contas, disse ele consigo, o caçoado é ele. Eu sou apenas o meio | dominio_publico | null | null | Linha Reta e Linha Curva | Machado de Assis | 77 | ||
do_obra_001884_022 | de prendê-lo... Contribuamos para que se lhe tire a proa.
- Nenhuma história, continuou Emília.
- Pois olhe, eu sei muitas, disse Diogo com intenção.
- Conte uma de tantas que sabe, disse Tito.
- Nada! Por que não conta o senhor?
- Se faz empenho...
- Muito... muito, disse Diogo piscando os olhos. Conte lá, por e... | dominio_publico | null | null | Linha Reta e Linha Curva | Machado de Assis | 101 | ||
do_obra_001884_023 | viajantes encouraçados; vá, vá.
- Não, vou contar a história de um homem e de um macaco.
- Oh! disse a viúva.
- É muito interessante, disse Tito. Ora, ouçam...
- Perdão, interrompeu Emília, será depois do chá.
- Pois sim.
Daí a pouco servia-se o chá aos três. Findo ele, Tito tomou a palavra e
começou a história:... | dominio_publico | null | null | Linha Reta e Linha Curva | Machado de Assis | 112 | ||
do_obra_001884_024 | para ter expressões tão benévolas... tão amigas...
- Deixe esse ar de mofa, e...
- Mofa, minha senhora?
- Ontem eu e minha tia tomamos chá sozinhas! sozinhas!...
- Ah!
- Contava que o senhor viesse aborrecer-se uma hora conosco...
- Qual aborrecer... Eu lhe digo: o culpado foi o Ernesto.
- Ah! foi ele?
- É ver... | dominio_publico | null | null | Linha Reta e Linha Curva | Machado de Assis | 96 | ||
do_obra_001884_025 | tirou o lenço dos olhos, tinha-os úmidos. Voltou-se contra a luz e disse ao
moço:
- Qual... pode continuar.
- Não há mais nada; foi só isto, disse Tito.
- Estimo que a noite lhe corresse feliz...
- Alguma cousa...
- Mas a uma carta responde-se; por que não respondeu à minha? disse a
viúva.
- À sua qual?
- A ca... | dominio_publico | null | null | Linha Reta e Linha Curva | Machado de Assis | 123 | ||
do_obra_001884_026 | esqueci-a em algum lugar...
- É possível: mas é a última vez...
- Não me convida mais para tomar chá?
- Não. Pode arriscar-se a perder distrações melhores.
- Isso não digo: a senhora trata bem a gente, e em sua casa passam-se bem as
horas... Isto é com franqueza. Mas então tomou chá sozinha? E o Diogo?
- Descarte... | dominio_publico | null | null | Linha Reta e Linha Curva | Machado de Assis | 107 | ||
do_obra_001884_027 | com estas palavras:
- Que música triste!
- Traduzo a minha alma, disse a viúva.
- Anda triste?
- Que lhe importam as minhas tristezas?
- Tem razão, não me importam nada. Em todo o caso não é comigo?
Emília levantou-se e foi para ele.
- Acha que lhe hei de perdoar a desfeita que me fez? disse ela.
- Que desfeit... | dominio_publico | null | null | Linha Reta e Linha Curva | Machado de Assis | 121 | ||
do_obra_001884_028 | cada uma, sem outra ambição, sem inveja de mais nada. Sabe o que é isto?
- Sei... É o casamento por fora.
- Conheço alguém que lhe provava aquilo tudo...
- Deveras? Quem é essa fênix?
- Se lho disser, há de mofar; não digo.
- Qual mofar! Diga lá, eu sou curioso.
- Não acredita que haja alguém que possa amá-lo?
-... | dominio_publico | null | null | Linha Reta e Linha Curva | Machado de Assis | 102 | ||
do_obra_001884_029 | acalmar o ânimo de Diogo. Daí a alguns minutos estava ele radiante.
- Olhe, e para desenganá-lo de uma vez vou escrever um bilhete ao Tito...
- Eu mesmo o levarei, disse Diogo louco de contente.
- Pois sim!
- Adeus, até amanhã. Tenha sonhos cor-de-rosa, e desculpe os meus maus
modos. Até amanhã. | dominio_publico | null | null | Linha Reta e Linha Curva | Machado de Assis | 75 | ||
do_obra_001884_030 | falar francamente. Ninguém nos ouve?
- Ernesto está fora e o Tito lá em cima. Mas que ar é esse?
- Adelaide! disse Emília com os olhos rasos de lágrimas, eu o amo!
- Que me dizes?
- Isto mesmo. Amo-o doudamente, perdidamente, completamente. Procurei
até agora vencer esta paixão, mas não pude; e quando, por vãos | dominio_publico | null | null | Linha Reta e Linha Curva | Machado de Assis | 79 | ||
do_obra_001884_031 | por tudo; e mais crescia nele a indiferença, mais crescia o amor em mim.
- Mas estás falando sério?
- Olha antes para mim.
- Quem pensara?...
- A mim própria parece impossível; porém é mais que verdade...
- E ele?...
- Ele disse-me quatro palavras indiferentes, nem sei o que foi, e retirou-se.
- Resistirá?
- Nã... | dominio_publico | null | null | Linha Reta e Linha Curva | Machado de Assis | 135 | ||
do_obra_001884_032 | A senhora está passando neste momento pelas forças caudinas. Fi-la sofrer,
não? Ouvindo o que vou dizer concordará que eu já antes sofria, e muito
mais.
- Temos romance? perguntou Adelaide a Tito.
- Realidade, minha senhora, respondeu Tito, e realidade em prosa. Um dia,
há já alguns anos, tive eu a felicidade de v... | dominio_publico | null | null | Linha Reta e Linha Curva | Machado de Assis | 88 | ||
do_obra_016931_000 | divirto-me; onde está o gamão?“
—Sim, creio que o senhor está enganado.
—Pode ser minha senhora. Oxalá tenham razão; mas creia que não falei
senão depois de muito examinar...
—Em todo caso, vai sendo tempo, interrompeu minha mãe; vou tratar de
metê-lo no seminário quanto antes.
—Bem, uma vez que não perdeu a idéia de o... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 87 | ||
do_obra_016931_001 | pequeno, se tem de ser padre, realmente é melhor que não comece a dizer missa
atrás das portas. Mas, olhe cá, mana Glória, há mesmo necessidade de fazê-lo
padre?
— É promessa, há de cumprir-se.
—Sei que você fez promessa... mas uma promessa assim... não sei... Creio
que, bem pensado... Você que acha, prima Justina?
— E... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 98 | ||
do_obra_016931_002 | E outra vez na casa:
—Vem cá!
Não me pude ter. As pernas desceram-me os três degraus que davam para a
chácara, e caminharam para o quintal vizinho. Era costume delas, às tardes, e às
manhãs também. Que as pernas também são pessoas, apenas inferiores aos
braços, e valem de si mesma, quando a cabeça não as rege por ... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 84 | ||
do_obra_016931_003 | comprar um cavalo do Cabo, um adereço de brilhantes para a mulher, uma sepultura
perpétua de família, mandar vir da Europa alguns pássaros, etc.; mas a mulher, esta
D. Fortunata que ali está à porta dos fundos da casa, em pé, falando à filha, alta,
forte, cheia, como a tia, a mesma cabeça, os mesmos olhos claros, a mul... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 82 | ||
do_obra_016931_004 | efetivo naquela manhã. Pediu à minha mãe que velasse pelas infelizes que deixava;
não podia sofrer a desgraça, matava-se. Minha mãe falou-lhe com bondade, mas ele
não atendia a cousa nenhuma.
—Não, minha senhora, não consentirei em tal vergonha! Fazer descer a
família, tornar atrás... Já disse, mato-me! Não hei de conf... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 121 | ||
do_obra_016931_005 | ferida que fez, tive tais ou quais veleidades de escrever uma dissertação a este
propósito. Cheguei a pegar em livros velhos, livros mortos, livros enterrados, a abri-
los, a compará-los, catando o texto e o sentido, para achar a origem comum do
oráculo pagão e do pensamento israelita. Catei os próprios vermes dos... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 83 | ||
do_obra_016931_006 | entrou a cochilar e dormir. Tínhamos chegado à janela; um preto, que, desde algum
tempo, vinha apregoando cocadas, parou em frente e perguntou:
—Sinhazinha, qué cocada hoje?
—Não, respondeu Capitu.
—Cocadinha tá boa.
—Vá-se embora, replicou ela sem rispidez.
—Dê cá! disse eu descendo o braço para receber duas. | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 77 | ||
do_obra_016931_007 | contra a Igreja; só se eu lhe confessasse que não tinha vocação...
—Posso confessar?
—Pois, sim, mas seria aparecer francamente, e o melhor é outra cousa. José
Dias...
—Que tem José Dias?
—Pode ser um bom empenho.
—Mas se foi ele mesmo que falou...
—Não importa, continuou Capitu; dirá agora outra cousa. Ele gosta muito... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 100 | ||
do_obra_016931_008 | primeira vez há dous meses D. Glória não queria e bastava isso para que José Dias
não teimasse; mas ele queria ir, e fez um discurso, lembra-se?
—Lembra-me; disse que o teatro era uma escola de costumes.
—Justo; tanto falou que sua mãe acabou consentindo, e pagou a entrada aos
dous... Ande, peça, mande. Olhe, diga-lhe ... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 91 | ||
do_obra_016931_009 | vizinho Pádua; não se lembra?
—É verdade, mas foi tão de passagem. . .
—Ele pediu a sua mãe que o deixasse trazer consigo, e ela, que é boa como
a mãe de Deus, consentiu; mas ouça-me, já que falamos nisto, não é bonito que
você ande com o Pádua na rua.
—Mas eu andei algumas vezes...
—Quando era mais jovem; em criança, ... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 88 | ||
do_obra_016931_010 | deputado nas camaras.“
José Dias sorriu deliciosamente, mas fez um esforço grande e fechou outra vez o
rosto; depois replicou:
—Não lhe agradeço nada. Outros, de melhor sangue, me têm feito o favor de
juízos altos. E nada disso impede que ele seja o que lhe digo.
Tínhamos outra vez andado, subimos ao terraço, e olhamos... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 100 | ||
do_obra_016931_011 | mentiroso, mas então seria preciso confessar-lhe que estivera à escuta, atrás da
porta, e uma ação valia outra. Contentei-me de responder que não era tarde.
—Não é tarde, ainda é tempo, se o senhor quiser.
— Se eu quiser? Mas que outra cousa quero eu, senão servi-lo. Que desejo,
senão que seja feliz, como merece?
—Pois... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 97 | ||
do_obra_016931_012 | O recebedor das passagens puxou a correia que ia ter ao braço do cocheiro,
o ônibus parou, e o homem desceu. José Dias deu duas voltas rápidas à cabeça,
pegou-me no braço e fez-me descer consigo. Iríamos também acompanhar o
Santíssimo. Efetivamente, o sino chamava os fiéis àquele serviço da última hora. Já | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 76 | ||
do_obra_016931_013 | Um homem que podia tudo! que fazia tudo! Um homem que dava a uma senhora
uma pérola do valor de seis milhões de sestércio!
—E quanto valia cada sestércio?
José Dias, não tendo presente o valor do sestércio, respondeu entusiasmado:
—É o maior homem da história!
A pérola de César acendia os olhos de Capitu. Foi nessa oca... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 83 | ||
do_obra_016931_014 | cabelos, toda ela voou pelos ares, e só lhe ouvi esta pergunta:
—Há alguma cousa?
—Não há nada, respondi; vim ver você antes que o Padre Cabral chegue para
a lição. Como passou a noite?
—Eu bem. José Dias ainda não falou?
—Parece que não.
— Mas então quando fala?
—Disse-me que hoje ou amanhã pretende tocar no assunto; ... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 83 | ||
do_obra_016931_015 | vencer já, e de todo, não se lhe falaria. Eu já nem sei se José Dias poderá influir
tanto; acho que fará tudo, se sentir que você realmente não quer ser padre, mas
poderá alcançar?... Ele é atendido; se, porém... É um inferno isto! Você teime com
ele, Bentinho.
—Teimo- hoje mesmo ele há de falar.
—Você jura?
—Juro. Dei... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 124 | ||
do_obra_016931_016 | deslumbrou tanto. A denúncia de José Dias alvoroçara-me, a lição do velho coqueiro
também, a vista dos nossos nomes aberto por ela no muro do quintal deu-me grande
abalo, como vistes; nada disso valeu a sensação do beijo. Podiam ser mentira ou
ilusão. Sendo verdade, eram os ossos da verdade, não eram a carne e o sangue... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 104 | ||
do_obra_016931_017 | segunda reflexão foi tio Cosme que a fez. Padre Cabral acudiu que não era preciso
dizê-lo todo, bastava que lhe chamassem o protonotário Cabral. Subentendia-se
apostólico.
—Protonotário Cabral.
—Sim, tem razão; protonotário Cabral.
—Mas, Sr. protonotário, — acudiu prima Justina para se ir acostumando ao | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 76 | ||
do_obra_016931_018 | fizesse e outra vez me fugiram as palavras que trazia Assim gastamos alguns
minutos compridos, até que ela deixou inteiramente a costura, ergueu-se e esperou-
me. Fui ter com ela, e perguntei se a mãe havia dito alguma cousa; respondeu-me
que não A boca com que respondeu era tal que cuido haver-me provocado um gesto | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 79 | ||
do_obra_016931_019 | direita, depois na esquerda, e fiquei assim pasmado e trêmulo. Era a idéia com
mãos. Quis puxar as de Capitu, para obrigá-la a vir atrás delas, mas ainda agora a
ação não respondeu à intenção. Contudo, achei-me forte e atrevido. Não imitava
ninguém- não vivia com rapazes, que me ensinassem anedotas de amor. Não | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 78 | ||
do_obra_016931_020 | deteve-se um instante à porta da sala antes de ir beijar a mão a minha mãe e ao
padre. Como desse a este duas vezes em cinco minutos, o título de protonotário,
José Dias para se desforrar da concorrência, fez um pequeno discurso em honra “ao
coração paternal e augustíssimo de Pio IX.“
—Você é um grande prosa, disse tio... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 88 | ||
do_obra_016931_021 | Toda assustada, quis saber o que é que me doía, se a cabeça, se o peito, se
o estômago, e apalpava-me a testa para ver se tinha febre.
—Não tenho nada não, senhora.
— Mas então que é?
— É uma cousa, mamãe... Mas, escute, olhe, é melhor depois do chá; logo...
Não é nada mau; mamãe assusta-se por tudo; não é cousa de cui... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 117 | ||
do_obra_016931_022 | Ao que ela respondeu:
—Vossa Reverendíssima pode falar.
—Promete uma cousa?
—Que é?
—Diga se promete.
—Não sabendo o que é, não prometo.
—A falar verdade são duas cousas, continuei eu, por haver-me acudido outra
idéia.
—Duas? Diga quais são.
—A primeira é que só se há de confessar comigo, para eu lhe dar a penitên... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 80 | ||
do_obra_016931_023 | intrigas; desfizeram-se. Deus é grande e descobre a verdade. Se algum dia perder
sua mãe e seu tio,—cousa que eu, por esta luz que me alumia, não desejo, porque
são boas pessoas, excelentes pessoas, e eu sou grato às finezas recebidas... Não,
eu não sou como outros, certos parasitas, vindos de fora para desunião das fa... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 81 | ||
do_obra_016931_024 | ordens. Tio Cosme, quando eu lhe beijei a mão em despedida, disse-me rindo:
—Anda lá, rapaz, volta-me papa!
José Dias, composto e grave, não dizia nada a princípio; tínhamos falado na
véspera, no quarto dele, onde fui ver se era ainda possível evitar o seminário. Já não
era, mas deu-me esperanças e principalmente ... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 157 | ||
do_obra_016931_025 | uma vigairaria mineira...
Contrário a isso foi um seminarista que não seguiu a carreira. Chamava-se...
Não é preciso dizer o nome; baste o caso. Tinha composto um Panegírico de Santa
Mônica, elogiado por algumas pessoas e então lido entre os seminaristas. Alcançou
licença de imprimi-lo, e dedicou-o a Santo Agostinho. T... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 106 | ||
do_obra_016931_026 | de teologia gostou da metáfora, e disse-lho; ele agradeceu, explicando que eram
idéias que lhe escapavam no correr da conversação; não escrevia nem orava. Eu é
que não gostei nada; e logo que os lentes se foram, sacudi a cabeça:
—Não quero saber dos santos óleos da teologia; desejo sair daqui o mais | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 75 | ||
do_obra_016931_027 | igreja para os bons“, fosse outro bezerro, irmão dos “santos óleos da teologia.“ Mas
não dei tempo à ternura materna, e repliquei:
—Ah! entendo! mostrar que estou doente para embarcar, não é?
José Dias hesitou um pouco, depois explicou-se:
—Mostrar a verdade, porque, francamente, Bentinho, eu há meses que | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 76 | ||
do_obra_016931_028 | Era uma alusão às Filipinas. Pois que não amo a política, e ainda menos a
política internacional, fechei a janela e vim acabar este capítulo para ir dormir. Não
peço agora os sonhos de Luciano, nem outros, filhos da memória ou da digestão;
basta-me um sono quieto e apagado. De manhã, com a fresca, irei dizendo o mais | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 79 | ||
do_obra_016931_029 | desconsoladas, e os dias, em casa dela, foram tão tristes como os meus; podia
indagá-lo do pai e da mãe. A mãe chegou a dizer-lhe, por palavras encobertas, que
não pensasse mais em mim.
—Com D. Glória e D. Justina mostro-me naturalmente alegre, para que não
pareça que a denúncia de José Dias é verdadeira. Se parecesse,... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 84 | ||
do_obra_016931_030 | Capitu vai passar uns dias com uma amiga da Rua dos Inválidos. Quando ela vier,
você irá lá; mas pode ir antes, pode ir sempre; por que não foi ontem jantar comigo?
—Você não me convidou.
— Pois precisa convidar? Lá em casa todos ficaram gostando muito de você.
—Também eu fiquei gostando de todos, mas é possível f... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 83 | ||
do_obra_016931_031 | palavra de minha mãe. Agora se entenderá que ela me dissesse, no primeiro
sábado, quando eu cheguei a casa, e soube que Capitu estava na Rua dos
Inválidos, com sinhazinha Gurgel:
—Por que não vais vê-la? Não me disseste que o pai de Sancha te ofereceu a
casa?
—Ofereceu.
—Pois então? Mas é se queres. Capitu devia ter vo... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 86 | ||
do_obra_016931_032 | O pai de Sancha recebeu-me em desalinho e triste. A filha estava enferma-
caíra na véspera com uma febre, que se ia agravando. Como ele queria muito à
filha, pensava já vê-la morta, e anunciou-me que se mataria também. Eis aqui um
Capítulo fúnebre como um cemitério, mortes, suicídios e assassinatos. Eu ansiava | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 77 | ||
do_obra_016931_033 | naturais dirão outra cousa que não seja de si mesmos. Foi o que fizemos, Capitu e
eu. Vagamente lembra-me que lhe perguntei se a demora ali seria grande...
—Não sei- a febre parece que cede... mas...
Também me lembra, vagamente, que lhe expliquei a minha visita à Rua dos
inválidos, com a pura verdade, isto é, a conselh... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 92 | ||
do_obra_016931_034 | nenhuma outra, continuamos a andar nela, e era conhecida na rua e no bairro pela
“sege antiga.“ Afinal minha mãe consentiu em deixá-la, sem a vender logo; só abriu
mão dela porque as despesas de cocheira a obrigaram a isso. A razão de a guardar
inútil foi exclusivamente sentimental; era a lembrança do marido. Tudo o qu... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 81 | ||
do_obra_016931_035 | e se demorará muito, e que pergunte ao moleque, quando passar. Enquanto espera,
relê jornais e toma notas. Mas também, apenas recebe os seus papéis, atira-se a lê-
los, e começa logo a escrever a resposta. Há ocasiões em que não come ou come
mal; tanto que eu queria pedir-lhe uma cousa, é que não os mande à hora do alm... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 80 | ||
do_obra_016931_036 | frescas. E não contávamos voltar.
—Não, agora não voltamos mais. Olhe, aquele preto que ali vai passando, é
de lá. Tomás!
—Nhonhô!
Estávamos na horta da minha casa, e o preto andava em serviço; chegou-se
a nós e esperou.
—É casado, disse eu para Escobar. Maria onde está?
— Está socando milho, sim, senhor.
—Você ai... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 98 | ||
do_obra_016931_037 | da pessoa, como João Fulo, Maria Gorda ou de nação como Pedro Benguela,
Antônio Moçambique...
— E estão todos aqui em casa? perguntou ele.
—Não, alguns andam ganhando na rua, outros estão alugados Não era
possível ter todos em casa. Nem são todos os da rosa: a maior parte ficou lá.
— O que me admira é que D. Glória se ... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 89 | ||
do_obra_016931_038 | onde a perfeição é maior é no emprego do zero. O valor do zero é, em si mesmo,
nada; mas o ofício deste sinal negativo é justamente aumentar. Um 5 sozinho é um
5; ponha-lhe dous 00, é 500. Assim, o que não vale nada faz valer muito, cousa que
não fazem as letras dobradas, pois eu tanto aprovo com um p como com dous pp. | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 80 | ||
do_obra_016931_039 | UM SUBSTITUTO
Expus a Capitu a idéia de José Dias. Ouviu-me atentamente. e acabou triste.
—Você indo, disse ela, esquece-me inteiramente.
—Nunca!
—Esquece. A Europa dizem que é tão bonita, e a Itália principalmente. Não é
de lá que vêm as cantoras? Você esquece-me, Bentinho. E não haverá outro meio?
D. Glória está mort... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 98 | ||
do_obra_016931_040 | mocinho órfão, fazê-lo ordenar à sua custa, está dado um padre ao altar, sem que
você...
—Entendo, entendo, é isso mesmo.
—Não acha? continuou ele. Consulte sobre isto o protonotário: ele lhe dirá se
não é a mesma cousa, ou eu mesmo consulto, se quer e se ele hesitar, fala-se ao
Sr. bispo.
Eu, refletindo:
—Sim, parece ... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 92 | ||
do_obra_016931_041 | seminarista que ouvir por toda a parte latim e Escritura. A verdade que Capitu, que
não sabia Escritura nem latim, decorou algumas palavras, como estas, por exemplo:
“Sentei-me à sombra daquele que tanto havia desejado.“ Quanto às de S. Pedro,
disse-me no dia seguinte que estava por tudo, que eu era a única renda e o ú... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 81 | ||
do_obra_016931_042 | por ocasião da nossa última visita a Andaraí, e disse-lhe a razão do segredo.
—Quando contei isto a Sanchinha, concluiu ele, ficou espantada:
“Como é que Capitu pode economizar, agora que tudo está tão caro?“—“Não
sei, filha; sei que arranjou dez libras.“
—Vê se ela aprende também.
—Não creio; Sanchinha não é gastadeir... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 88 | ||
do_obra_016931_043 | ser e seria minha mãe. Mas a primeira parte se trocou por intervenção do tio Cosme,
que, ao ver a criança, disse-lhe entre outros carinhos:
—Anda, toma a bênção a teu padrinho, velhaco.
E, voltando-se para mim:
—Não desisto do favor; e há de ser depressa o batizado, antes que a minha
doença me leve de vez. | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 76 | ||
do_obra_016931_044 | outro de espada alçada, e todos os seus amores iam para o de espada alçada. Um
dia (ingênua idade!), perguntou-me impaciente:
— Mas, papai, por que é que ele não deixa cair a espada de uma vez?
— Meu filho, é porque é pintado.
— Mas então por que é que ele se pintou?
Ri-me do engano e expliquei-lhe que não era o soldad... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 85 | ||
do_obra_016931_045 | sucessos ocorridos, e da tal ou qual simpatia ao rato que acho em mim; teve graça.
Não me pesa dizê-lo; os que amam a natureza como ela quer ser amada, sem
repúdio parcial nem exclusões injustas, não acham nela nada inferior. Amo o rato,
não desamo o gato. Já pensei em os fazer viver juntos, mas vi que são | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 76 | ||
do_obra_016931_046 | maneiras dos outros; e para que não fosse mais longe...
—Também não vamos mortificá-lo. Sempre há tempo de corrigi-lo.
—Há, vou ver. Você também não era assim, quando se zangava com
alguém...
—Quando me zangava, concordo; vingança de menino.
—Sim, mas eu não gosto de imitações em casa.
—E naquele tempo gostavas de mim?... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 87 | ||
do_obra_016931_047 | enchendo e colorindo aos poucos, e a figura entra a ver, sorrir, palpitar, falar quase,
até que a família pêndula o quadro na parede, em memória do que foi e já não pode
ser. Aqui podia ser e era. O costume valeu muito contra o efeito da mudança; mas a
mudança fez-se, não à maneira de teatro, fez-se como a manhã que ap... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 81 | ||
do_obra_016931_048 | que querem sair. O ser sexta-feira creio que foi acaso, mas também pode ter sido
propósito; fui educado no terror daquele dia. ouvi cantar baladas, em casa, vindas da
roça e da antiga metrópole, nas quais a sexta-feira era o dia de agouro. Entretanto,
não havendo almanaques no cérebro, é provável que a idéia não batess... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 102 | ||
do_obra_016931_049 | cor escura, as mesmas asas trépidas, e posto avoasse com elas, era como se fosse
fixa; eu a levava na retina, não que me encobrisse as cousas externas, mas via-as
através dela, com a cor mais pálida que de costume, e sem se demorarem nada.
Não me lembra bem o resto do dia. Sei que escrevi algumas cartas, comprei | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 78 | ||
do_obra_016931_050 | ditas duas vezes com tal resolução que a fizeram afrouxar. Após alguns instantes,
disse-me ela:
—Só se pode explicar tal injúria pela convicção sincera; entretanto você que
era tão cioso dos menores gestos, nunca revelou a menor sombra de desconfiança.
Que é que lhe deu tal idéia? Diga,— continuou vendo que eu não resp... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 83 | ||
do_obra_016931_051 | ferida. Uma vez, porém, que a senhora insiste, aqui vai o que lhe posso dizer, e é
tudo.
Não disse tudo; mas pude aludir aos amores de Escobar sem proferir-lhe o
nome. Capitu não pôde deixar de rir, de um riso que eu sinto não poder transcrever
aqui; depois, em um tom juntamente irônico e melancólico:
—Pois até os defu... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 91 | ||
do_obra_016931_052 | fantasmagoria de alucinado; mas a entrada repentina de Ezequiel, gritando:—
“Mamãe! mamãe! é hora da missa!“ restituiu-me à consciência da realidade. Capitu e
eu, involuntariamente, olhamos para a fotografia de Escobar, e depois um para o
outro. Desta vez a confusão dela fez-se confissão pura. Este era aquele; havia po... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 100 | ||
do_obra_016931_053 | admite-se...
José Dias assistiu a estas diligências, com grande melancolia. No fim, quando
saímos, disse mal do padre, chamou-lhe meticuloso. Só lhe achava desculpa por
não ter conhecido minha mãe, nem ele nem os outros homens do cemitério.
—Não a conheceram; se a conhecessem mandariam esculpir santíssima.
CAPÍTULO CXL... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 104 | ||
do_obra_016931_054 | UMA PERGUNTA TARDIA
Assim chorem por mim todos os olhos de amigos e amigas que deixo neste
mundo, mas não é provável. Tenho-me feito esquecer. Moro longe e saio pouco.
Não é que haja efetivamente ligado as duas pontas da vida. Esta casa do Engenho
Novo, conquanto reproduza a de Mata-cavalos, apenas me lembra aquela, e ... | dominio_publico | null | null | Dom Casmurro | Machado de Assis | 81 | ||
do_obra_016935_000 | levavam o coração puro. S. João abanava a cabeça.
— Francisco de Sales, digo-te que vou criando um sentimento singular em
santo: começo a descrer dos homens.
— Exageras tudo, João Batista, atalhou o santo bispo, não exageremos nada.
Olha — ainda hoje aconteceu aqui uma cousa que me fez sorrir, e pode ser, | dominio_publico | null | null | Entre Santos | Machado de Assis | 76 | ||
do_obra_016935_001 | E o santo bispo calou-se para saborear o espanto dos outros.
— O cadáver?
— Sim, o cadáver. Fez enterrar a escrava como pessoa livre e miserável, para
não acudir às despesas da sepultura. Pouco embora, era alguma cousa. E para ele
não há pouco; com pingos d‘água é que se alagam as ruas. Nenhum desejo de | dominio_publico | null | null | Entre Santos | Machado de Assis | 76 | ||
do_obra_016935_002 | anjos do Senhor... 1.000 — 1.000 — 1.000. Os quatro algarismos foram crescendo
tanto, que encheram a igreja de alto a baixo, e com eles, crescia o esforço do
homem, e a confiança também; a palavra saía-lhe mais rápida, impetuosa, já falada,
mil, mil, mil, mil ... Vamos lá, podeis rir à vontade, concluiu S. Francisco de... | dominio_publico | null | null | Entre Santos | Machado de Assis | 81 | ||
do_obra_016916_000 | tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a;
disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois...
— Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa.
— Onde é a casa?
— Aqui perto, na Rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa ocasião. | dominio_publico | null | null | A Cartomante | Machado de Assis | 76 |
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