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|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
do_obra_016916_001 | logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada. Por quê?
Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento: limitava-se a negar tudo. E digo
mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do
mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando. | dominio_publico | null | null | A Cartomante | Machado de Assis | 75 | ||
do_obra_016916_002 | em outras cousas: mas a voz do marido sussurrava-lhe a orelhas as palavras da
carta: “Vem, já, já...“ E ele via as contorções do drama e tremia. A casa olhava para
ele. As pernas queriam descer e entrar . Camilo achou-se diante de um longo véu
opaco... pensou rapidamente no inexplicável de tantas cousas. A voz da mãe | dominio_publico | null | null | A Cartomante | Machado de Assis | 79 | ||
do_obra_016916_003 | Deu por si na calçada, ao pé da porta: disse ao cocheiro que esperasse, e
rápido enfiou pelo corredor, e subiu a escada. A luz era pouca, os degraus comidos
dos pés, o corrimão pegajoso; mas ele não, viu nem sentiu nada. Trepou e bateu.
Não aparecendo ninguém, teve idéia de descer; mas era tarde, a curiosidade | dominio_publico | null | null | A Cartomante | Machado de Assis | 77 | ||
do_obra_001920_000 | cantigas, à maneira do rei que não cuidava de outra coisa. Daí a ilusão das estrelas.
Vai senão quando, uma das academias achou esta solução ao problema:
— Umas almas são masculinas, outras femininas. A anomalia que se observa é uma
questão de corpos errados.
— Nego, bradaram as outras três; a alma é neutr... | dominio_publico | null | null | As Academias de Sião | Machado de Assis | 86 | ||
do_obra_001920_001 | absolver uma ação tão crua e feia; alguns chegavam mesmo a duvidar do que viam... Uma
só pessoa aprovou tudo: foi a bela Kinnara, a flor das concubinas régias.
Molemente deitado aos pés da bela Kinnara, o jovem rei pedia-lhe uma cantiga.
— Não dou outra cantiga que não seja esta: creio na alma sexual.
... | dominio_publico | null | null | As Academias de Sião | Machado de Assis | 178 | ||
do_obra_001920_002 | um frasquinho com veneno, imitado dos Bórgias.
De repente, pensou na douta academia; podia consultá-la, não claramente, mas por
hipótese. Mandou chamar os acadêmicos; vieram todos menos o presidente, o ilustre U-
Tong, que estava enfermo. Eram treze; prosternaram-se e disseram ao modo de Sião:
— Nós, desprezív... | dominio_publico | null | null | As Academias de Sião | Machado de Assis | 145 | ||
do_obra_001920_003 | dissesse isto com lealdade, embora confidencialmente...
Kalaphangko tinha a boca aberta. Treze camelos? Treze, treze. U-Tong ressalvou
tão-somente o coração de todos, que declarou excelente; nada superior a eles pelo lado do
caráter. Kalaphangko, com um fino gesto de complacência, despediu o sublime U-Tong, e | dominio_publico | null | null | As Academias de Sião | Machado de Assis | 79 | ||
do_obra_001920_004 | academia (contando U-Tong) e todos em coro mandavam aos ares o velho hino: “Glória a
nós, que somos o arroz da ciência e a claridade do mundo!“
A bela Kinnara (antigo Kalaphangko) tinha os olhos esbugalhados de assombro.
Não podia entender como é que quatorze varões reunidos em academia eram a claridade do
mundo... | dominio_publico | null | null | As Academias de Sião | Machado de Assis | 99 | ||
do_obra_017474_000 | conhecimento da existência retirada do poeta.
Só tarde soube este que o vizinho tinha uma filha, uma linda e infeliz filha, no dizer do
próprio pai. Isto equivale a dizer que, apesar da mesma vitória alcançada pelo poeta no
espírito do hortelão, ainda não tinha conseguido transpor a soleira da casa deste. | dominio_publico | null | null | O Pai | Machado de Assis | 77 | ||
do_obra_017474_001 | Um dia entrou Valentim em casa da namorada dando gritos de grande contentamento:
— Que é isso? perguntou-lhe Vicente.
— Meu sogro, tudo está arranjado.
— Ah!
— Não saiu ainda o despacho, mas há de sair daqui a um mês.
— Ainda um mês!
— Todavia o ministro exige que durante este tempo eu vá à província de *** cumprir uma... | dominio_publico | null | null | O Pai | Machado de Assis | 141 | ||
do_obra_017474_002 | Choraste esta noite. Era natural. Agora consola-te e espera. Sim?
— Sim. Ele foi triste?
— Como tu. É outra criança. Nada de choros. Esperança e confiança. Ora bem...
Emília procurou rir, como podia, para consolar o pai; e durante os dias que se seguiram
não foi encontrada a chorar uma só vez que fosse, nem os seus ol... | dominio_publico | null | null | O Pai | Machado de Assis | 83 | ||
do_obra_017474_003 | Nesse momento apareceu Emília, e vendo o pai naquele estado de agitação, correu para
ele:
— Que tem, meu pai?
— Que tenho? É esta carta...
— Esta carta!?
E Emília procurava ler as folhas amarrotadas que Vicente lhe mostrava sem as largar das
mãos.
— Que diz esta carta, meu pai? perguntou Emília levantando os olhos pa... | dominio_publico | null | null | O Pai | Machado de Assis | 82 | ||
do_obra_017474_004 | Vicente olhou para ela, atirou a carta para uma gaveta, fechou-a, e foi sentar-se em um
sofá.
— Que dizia aquela carta?
— Minha filha... tens coragem?...
— Tenho... mas...
— Escute bem.
Emília ajoelhou-se aos pés de Vicente e com a cabeça nos joelhos deste escutou.
— O que te vou dizer é grave, continuou Vicente; prep... | dominio_publico | null | null | O Pai | Machado de Assis | 120 | ||
do_obra_017474_005 | Depois mandou chamar o médico.
O médico veio, e depois de examinar a moça disse que respondia pela vida dela.
— Sr. doutor, disse Vicente ao médico à porta da rua, a morte desta menina é a minha
morte. Salve-a!
— Pode ficar descansado, respondeu o médico.
Então começou para Vicente uma vida de dedicação. Como exatamen... | dominio_publico | null | null | O Pai | Machado de Assis | 83 | ||
do_obra_017474_006 | cometer um suicídio sem proveito, nem razão legítima.
— Meu pai, assim é preciso.
— Não é, minha filha.
— Afirmo-lhe que é.
— Tão generosamente pagas a quem foi tão cruel para contigo?
— Meu pai, disse Emília, cada um de nós foi condenado a ter neste negócio uma
catástrofe. É a sua vez.
— Explica-te.
— Meu pai, disse ... | dominio_publico | null | null | O Pai | Machado de Assis | 97 | ||
do_obra_017474_007 | do teu coração foi iludida. Tudo isto pertence ao passado. Mas pensaste no futuro?
— No futuro?
— Sim, pensaste na tua posição de ora avante, nas circunstâncias penosas em que te
achas, mas ainda mui penosas com que hás de achar-te quando eu morrer?
— Oh! meu pai, eu também morrerei...
— Ouve. Não digas isso. Não sabe... | dominio_publico | null | null | O Pai | Machado de Assis | 93 | ||
do_obra_017474_008 | concentrado. Não perdera uma só das revelações do velho, e às últimas palavras dele
lançou-se-lhe aos braços.
— Muito bem! muito bem! exclamou o poeta. Obrou como um homem de honra e de
prudência. Não era outro o seu procedimento. Este abraço é de irmão, e de admirador.
— Fiz o dever, não?
— Fez! fez! Devem todos os ... | dominio_publico | null | null | O Pai | Machado de Assis | 94 | ||
do_obra_017474_009 | sua ausência foi sentida como se fora a de um amigo de longo tempo?
— Desconfio...
— Pois é verdade. Então, ainda volta?
— Não. Fico de uma vez.
— Tanto melhor.
— E desde já imponho, como condição disto, um perdão de sua parte.
— Um perdão?
— É verdade: um perdão.
— Que crime cometeu?
— Ah! não sou eu o culpado... é o... | dominio_publico | null | null | O Pai | Machado de Assis | 106 | ||
do_obra_002091_000 | viu ir a enterrar com ele a melhor página da sua mocidade.
A família do conselheiro compunha-se de duas pessoas: um filho, o Dr. Estácio, e uma
irmã, D. Úrsula. Contava esta cinqüenta e poucos anos; era solteira; vivera sempre com o
irmão, cuja casa dirigia desde o falecimento da cunhada. Estácio tinha vinte e sete ... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 82 | ||
do_obra_002091_001 | Camargo não respondeu logo ; olhou para o papel, como a querer adivinhar o
conteúdo. O silêncio foi muito demorado para não fazer impre ssão no moço, que aliás nada
disse, porque o atribuíra à comoção natural do amigo em tão dolorosas circunstâncias.
— Sabem o que estará aqui dentro? disse enfim Camargo. Talvez uma ... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 83 | ||
do_obra_002091_002 | seu modo de sentir, que o médico interiormente aprovava.
— Conheceu a mãe dela? perguntou a irmã do conselheiro.
— Conheci.
— Que espécie de mulher era?
— Fascinante.
— Não é isso; pergunto-lhe se era mulher de ordem inferior, ou...
— Não sei; no tempo em que a vi, não tinha classe e podia pertencer a todas; dem... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 140 | ||
do_obra_002091_003 | de um simples duo, porque D. Úrsula contava os fios da toalha ou brincava com as pontas do
lenço que trazia ao pescoço. Como falassem da casa, Estácio disse à irmã:
— Esta casa é tão sua como nossa; faça de conta que nascemos debaixo do mesmo
teto. Minha tia lhe dirá o sentimento que nos anima a seu respeito. | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 78 | ||
do_obra_002091_004 | casa e a chácara, seu irmão pode conduzi-la.
Estácio declarou-se pronto para acompanha r a irmã. Helena, entretanto, recusou.
Irmão embora, era a primeira vez que o via, e, ao que parece, a primeira que podia achar-se a
sós com um homem que não seu pai. D. Úrsula , talvez porque preferisse ficar só algum
tempo, dis... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 121 | ||
do_obra_002091_005 | Helena ergueu-se.
— Gostava dele? perguntou ela.
— Quem não gostaria dele?
— Tem razão. Era uma alma grande e nobre; eu adorava-o. Reconheceu-me; deu-me
família e futuro; levantou-me ao s olhos de todos e aos meus próprios. O resto depende de
mim, do juízo que eu tiver, ou talvez da fortuna.
Esta última palavra ... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 95 | ||
do_obra_002091_006 | esses pautavam os sentimentos pelos de D. Úrsula. Servos de uma família, viam com desafeto
e ciúme a parenta nova, ali trazida por um ato de generosidade. Mas também a esses venceu o
tempo. Um só de tantos pareceu vê-la desde pr incípio com olhos amigos; era um rapaz de 16
anos, chamado Vicente, cria da casa e parti... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 91 | ||
do_obra_002091_007 | menos viva e sincera; faltando-lhe os gozos próprios do afeto, — a familiaridade e o contacto,
— condenado a viver da contemplação e da memória, a não beija r sequer a mão que o
abençoava, limitado e distanciado pelos costumes, pelo respeito e pelos instintos, Vicente foi,
não obstante, um fiel servidor de Helena, s... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 92 | ||
do_obra_002091_008 | amiga verdadeira!
— Sim?
— Muito! Tenho tantas que não prestam para nada, e só me dão desgostos, como
Cecília... Se soubesse o que ela me fez!
— Que foi?
Eugênia desfiou uma historiazinha de toucador, que omito em suas particularidades
por não interessar ao nosso cas o, bastando saber que a razão cap ital da dive... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 84 | ||
do_obra_002091_009 | termo às suas queixas:
— O que me parece, observou o sobrinho de D. Úrsula, é que não va lia a pena brigar
por tão pouca coisa...
— Pouca coisa! exclamou Eugênia. Parece-lhe pouco chamar-me caprichosa e de mau
gosto?
— Fez mal, se o disse, em todo o caso...
Estácio fez uma pausa e continuou a andar. Eugênia esper... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 87 | ||
do_obra_002091_010 | ia dizer; mas o silêncio prolongou-se mais do que era natural.
— Em todo o caso? repetiu a moça erguendo para ele os olhos límpidos e curiosos.
— Eugênia, disse Estácio, quer saber a ve rdadeira razão do mau sucesso de suas
afeições? E deixar-se levar mais pelas aparências que pela realidade; é porque dá menos
apr... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 101 | ||
do_obra_002091_011 | andar silenciosamente, acanhados e descontentes um do outr o. A diferença é que o enfado de
Eugênia se manifestava por um movimento nervoso de impaciência e despeito.
— Se o ofendi, perdoe-me, disse ela, com um leve tom de ironia.
— Oh! exclamou ele apertando-lhe a mão, como quem só esperava um pretexto para | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 78 | ||
do_obra_002091_012 | a uma mesa. Do outro lado, ficava Helena, a conduir uma obra de crochet.
— Titia, disse ele, dou-lhe uma novidade agradável para mim.
— Que é?
— O Mendonça chegou a Pernambuco; está aqui dentro de pouco tempo.
— O Mendonça?
— Luís Mendonça.
— O que foi para a Europa, sei. Há quanto tempo?
— Dois anos.
— Dois an... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 178 | ||
do_obra_002091_013 | caminhando para a sala de jantar.
— Não?
— Não, senhor; fiz um furto.
— Um furto!
— Fui procurar um livro na sua estante.
— E que livro foi?
— Um romance.
— Paulo e Virgínia?
— Manon Lescaut.
— Oh! exclamou Estácio. Esse livro...
— Esquisito, não é? Quando percebi que o era, fechei-o e lá o pus outra vez.
—... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 132 | ||
do_obra_002091_014 | senhora. Oh! com que garbo montava a senhora! Imaginem uma moça de vinte e cinco anos,
alta, esbelta, um busto de fa da, apertado no corpinho de amaz ona, e a longa cauda do vestido
caída a um lado. O cavalo era fogoso; mas a mã o e o chicotinho da cav aleira quebravam-lhe
os ímpetos. Tive pena, confesso, de não sab... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 115 | ||
do_obra_002091_015 | os olhos fitos na irmã e encostado ao poial de pedra.
— Quem lhe ensinou essas idéias? perguntou ele.
— Não são idéias, são sentimentos. Não se aprendem; trazem-se no coração. Senhor
geômetra, continuou brandindo caprichosamente o chicote, — veja se transcreve em algum
compêndio estas figuras de minha invenção, e a... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 85 | ||
do_obra_002091_016 | chegar.
— Estava caçoando conosco, disse Estácio. Vê como sabe montar?
— Ela sabe tudo, murmurou D. Úrsula entre dentes.
Estácio montou no cavalo. Consultou o relógio; eram sete horas e meia.
— Permite que o acompanhe? perguntou Helena.
— Com uma condição, disse ele; é que há de ter juízo. Não quero temeridades; ... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 81 | ||
do_obra_002091_017 | o airoso do busto e a firme serenidade com que ela conduzia o animal.
— Não me dirá você, perguntou ele, por que motivo, sabendo montar, pedia-me ontem
lições?
— A razão é clara, disse ela; foi uma s imples travessura, um capricho... ou antes um
cálculo.
— Um cálculo?
— Profundo, hediondo, diabólic o, continuou a... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 88 | ||
do_obra_002091_018 | aconteceu que iam falando das vantagens da riqueza.
— Valem muito os bens da fortuna, dizia Est ácio; eles dão a maior felicidade da terra,
que é a independência absoluta. Nunca exper imentei a necessidade; mas imagino que o pior
que há nela não é a privação de alguns apetites ou desejos, de sua natureza transitório... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 81 | ||
do_obra_002091_019 | acusado de me haver propinado o veneno? Não há melhor modo de me fazer evitar a morte.
— Deixemos conversas lúgubres, e voltemos para casa, interrompeu Estácio.
— Já!
— Raras vezes passo daqui; e não pense você que é perto.
— Parece-me que ainda agora saímos de casa. Vamos uns cinco minutos adiante?
Sim?
Estácio ... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 129 | ||
do_obra_002091_020 | Úrsula viu-a entrar risonha e ir a dar-lhe os costumados bons dias, — que eram sempre um
beijo, — ou antes dois, — um na mão, outro na face.
— Demorei-me muito? perguntou ela voltando rapidamente o corpo, de maneira a ver
o relógio que ficava do outro lado da sala. Nove horas! Que passeio, senhor meu irmão!
Estácio... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 121 | ||
do_obra_002091_021 | entrou? Tive-as; mas se não houvessem desaparecido, — desapareceriam hoje de manhã.
— Como?
Estácio referiu à tia a cena do capítulo anterior e as palavras que lhe dissera Helena.
D. Úrsula sorriu ironicamente.
— Não a impressiona isto? perguntou Estácio.
— Não, respondeu D. Úrsula com decisão; a frase de Helena é... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 85 | ||
do_obra_002091_022 | Camargo aparecera efetivamente a vinte passos de distância.
— Doutor, disse D. Úrsula, logo que este se aproximou deles, chega um pouco fora de
propósito. Eu mal tive tempo de assustar meu sobrinho, que ainda não sabe o que o senhor lhe
quer.
— Saberá agora; é só bastante que a senhora lhe diga que me aprova.
— Co... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 187 | ||
do_obra_002091_023 | continue os estudos; a eleição completa-o, da ndo-lhe a vida pública, que lhe falta. A única
objeção seria a falta de opinião política; mas esta objeção não o pode ser. Há de ter, sem
dúvida, meditado alguma vez nas necessidades públicas, e...
— Suponha, — é mera hipótese, — que tenho alguns compromissos com a oposi... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 102 | ||
do_obra_002091_024 | das coisas lhe designarão a que lado se deve inclinar.
Estácio ouviu atento estas vozes com que a serpente lhe apontava para a árvore da
ciência do bem e do mal. Menos curioso que Ev a, entrou a discutir filosoficamente com o
réptil.
— Entra-se na política, disse ele, por vocação legítima, ambição nobre, interesse, | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 80 | ||
do_obra_002091_025 | respondam em prosa quando falo em prosa.
— Parece-lhe que poetei? perguntou Estácio rindo.
— Despropositadamente! Ora, eu falo de coisas sérias; e convém não confundir alhos,
que são a metade prática da vida, com bugalhos, que são a parte ideológica e vã.
— Eu serei ideólogo.
— Não tem direito de o ser.
— Pois be... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 96 | ||
do_obra_002091_026 | Melchior, do alto de uma janela:
— Venha cá, senhor deputado; quando teremos o seu primeiro discurso?
CAPÍTULO VIII
D. Úrsula tinha já confia do ao velho capelão a proposta de Camargo. Consultado por
Estácio, respondeu o padre:
— Consulte as suas forças e a responsabilidade do cargo, e escolha.
— Já escolhi,... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 121 | ||
do_obra_002091_027 | E como Estácio respondesse com um gesto de assentimento:
— Vá ter com Eugênia, solicite licença para ir pedi-la a seu pai, e conclua isso quanto
antes. Não é verdade que se amam? Dela creio poder afirmar que sim; de você...
— De mim?
— Penso que é mais duvidoso; ou você é mais hábil. Há de se r isso. Naturalmente | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 79 | ||
do_obra_002091_028 | Helena abraçou a convalescente.
— Estácio, disse esta, agradece à tua irmã, como eu fiz.
Estácio inclinou-se para Helena, a fim de lhe pousar na fronte o casto ósculo de irmão.
Não o conseguiu, porque Helena , desviando o busto, estendeu-lhe sorrindo a mão esquerda e
disse:
— Não foi serviço que merece sse tanta p... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 113 | ||
do_obra_002091_029 | Admirava-se e espreitava a admiração dos outro s. A figura era realmente graciosa; mas
Estácio quisera-a mais inconsciente, menos preocupada do efeito que produzia.
— Há cem belezas como aquela, disse ele.
— Estácio! exclamou Helena com ar de repreensão.
— A beleza é como a bravura; vale mais se não a metem à cara ... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 88 | ||
do_obra_002091_030 | à janela, ia até ao portão da chácara, com ar de aparente indiferença, que a todos iludia, a
começar por ele próprio. Numa das vezes em que voltou à casa, achou levantada D. Úrsula;
falou-lhe; D. Úrsula sorriu com tranqüilidade.
— Que tem isso? disse ela. Já uma vez sa iu a passeio com o Vicente e não aconteceu
nad... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 150 | ||
do_obra_002091_031 | eu sair de manhã?
— Confesso que não gostei muito.
— Pois não sairei mais.
— Não; pode sair. Mas está certa de que não corre ne nhum perigo indo só com o
pajem?
— Estou.
— E se eu lhe pedir que não saia nunca sem mim?
— Não sei se poderei obed ecer. Nem sempre você poderá acompanhar-me; além
disso, indo com o ... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 97 | ||
do_obra_002091_032 | do futuro, a trechos soltos, como o lugar e a ocasião lhes permitia m. Mendonça, vendo que
Estácio não tocava em um ponto essencial, foi o primeiro que o aventou.
— Falaste-me em uma de tuas cartas de certa Eugênia.
— A filha do Camargo.
— Justo. Negócio roto?
— Quase terminado.
— Terminado... na igreja, suponho... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 110 | ||
do_obra_002091_033 | fim do mundo ou até ao fim da vida.
— Helena!
— Oh! não é vão melindre, é a própr ia necessidade da minha posição . Você pode
encará-la com olhos benignos; mas a verdade é que só as asas do favor me protegem... Pois
bem, seja sempre generoso, como foi agora; não procure violar o sacrário de minha alma. Não | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 77 | ||
do_obra_002091_034 | uma estética do coração, e essa bastou a fazê-la admirar o trabalho de Helena.
— Mas que digo eu todos os dias? exclamou D. Úrsula. Esta pequena sabe tudo!
— Quase tudo, emendou Helena; ignoro, por exemplo, como lhes hei de agradecer.
— O quê, tontinha? interrompeu a tia. Algum disparate, naturalmente, impróprio em | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 79 | ||
do_obra_002091_035 | Helena fez um gesto afirmativo.
— Não poderia encontrar outra melhor nem tão boa. D. Úr sula é uma santa senhora;
Estácio, um caráter austero e digno. Venhamos agora ao conselho. Há muito tempo ando com
idéia de ir à Europa; estou caminhando para a ve lhice; não quero deixar de ir ver alguma
coisa, além do nosso Pã... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 96 | ||
do_obra_002091_036 | interlocutor o pensamento verdadeiro e oculto. Camargo apressou-se a explicar-se.
— Estácio, disse ele, pode am ar Eugênia com idéias matrimoniais; mas também pode
não passar isto de um capítulo de romance, co mo o que se lê em uma viagem da Corte a
Niterói. O caráter é sério; o coração tem leis especiais. Confesso ... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 107 | ||
do_obra_002091_037 | decorrido é mais que muito suficiente para que... Está refletindo?
— Estou.
— E...
— Suponho que pede mais do que me disse. Quer que eu i ndague a tal respeito as
intenções de Estácio?
— Isso.
— Mas por que não se dirige a ele mesmo?
— Não havia inconveniente; estabeleceu-s e, porém, que um pai não deve ser o | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 79 | ||
do_obra_002091_038 | em ir pé ante pé. Admiras-te? perguntou ele, vendo que a irmã fazia um gesto de impaciência.
— Zango-me.
— Mas...
— Você é insuportável. Falta ao que prometeu.
— Já disse que hei de cumprir.
— Não recuará?
— Não.
— Irá pedi-la hoje mesmo?
— A ela.
— A ela e ao pai.
— Ao pai escreverei uma carta.
— Pois seja... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 132 | ||
do_obra_002091_039 | Ele ouvia já o rumor público; sentia-se maior, — antegostava as delíc ias da notoriedade, —
via-se como que sogro do Estado e pai das instituições.
— Vou entrar na cova dos le ões, sem a convicção de Daniel
5, suspirou Estácio na
ocasião em que cedeu às instâncias de Camargo.
— Seu talento amansará os leões, acudiu... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 81 | ||
do_obra_002091_040 | enfiara; posto entre a espada e a parede, já a viagem de Eugênia lhe parecia supérflua.
— Acompanha-nos? insistiu a moça.
— Não é possível, acudiu o médico, tamanho incômodo por um simples capricho.
— Pois então não vou!
D. Tomásia ficou um tanto vexada com a te ima de Eugênia. Estácio mordia o lábio, | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 76 | ||
do_obra_002091_041 | dirigida; estava sentada junto a uma das janelas, abriu-a e leu-a para si:
“Quando esta carta te chegar às mãos, esta rei morto, morto de saudades de minha tia e
de ti. Nasci para os me us, para minha casa, para os meus liv ros, os meus hábitos de todos os
dias. Nunca o senti tanto como agora que es tou longe do que... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 87 | ||
do_obra_002091_042 | se esconde sob a folhagem“ e que significa pôr-se alerta contra um perigo secreto.
vez; confesso-te que é o que me pode distrair um pouco. Pensav a ter perdido o costume; mas
não perdi. A modéstia impede-me dizer mais.
“A fazenda é vasta e a casa excelente. Não te direi que gosto da vida agrícola; não
gosto, não... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 148 | ||
do_obra_002091_043 | destino. Se a morte é certa, por que viver alg uns dias mais? E é vida isso, ou é morrer aos
goles, sem consciência do que se perde nem do que se vai ganhar?
“Está decidido; posso ir daqui a seis dias ou daqui a um mê s. Será o que Deus quiser.
Manda-me, entretanto, alguns livro s. No meu quarto só achei um Manual d... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 105 | ||
do_obra_002091_044 | um perigo.
— Vamos lá, disse ele; ninguém pode decidir o que há de fazer amanhã; Deus escreve
as páginas do nosso destino; nós não fazemos mais que transcrevê-las na terra.
— É verdade! confirmou ela com um gesto de cabeça, e sem erguer os olhos.
— Amanhã, continuou o padre, o acaso, — isso a que os incrédulos cham... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 188 | ||
do_obra_002091_045 | deles os desviou.
— Vê aquele homem? perguntou Helena. Parece-lhe que seria bom marido?
— Excelente, decerto, disse vivamente Melchior; caráter, educação, sentimentos.
— Tem ainda uma virtude particular: ama-me.
— Sei.
— Ele lho disse?
— Não, mas vê-se. É sabido de todos os que freqüentam esta casa. A probabilida... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 81 | ||
do_obra_002091_046 | que lhe desejo a ela. Também Helena o fará venturoso, não? Perguntou ele, voltando-se para
a moça.
— Mas é isto um sonho? perguntou enfim Mendonça.
— A vida não é outra coisa, retorquiu o cap elão; velho pensamento e velha verdade.
Façamos por que o sonho seja ag radável e não árido ou triste . Prometem-me que se f... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 81 | ||
do_obra_002091_047 | que ali está, naquele camarote, não é a andorinha viajante?
— A andorinha viajante? repetiu Mendonça, olhando para ele; que quer dizer esse
nome?
— É a alcunha da irmã de Estácio. Será ela que está ali, com uma senhora idosa?
— Mas por que lhe chamam assim?
— Eu sei! Naturalmente porque sai à rua todos os dias. Na... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 86 | ||
do_obra_002091_048 | tratava.
— Recebo uma notícia que me obriga a partir amanhã, disse ele.
— Negócio grave?
— Grave.
— Ainda assim, nesta ocasião..
— Que tem? D. Clara pode ainda resistir à morte alguns dias; e, posto que a minha
ausência não prejudique nada do fato a que aludo, contudo é mister que me informe e | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 75 | ||
do_obra_002091_049 | se em Cantagalo.
Ninguém esperava por ele em Andaraí. En trando na chácara, — era de noite, — viu
Estácio que a sala que ficava no ângulo esquerdo da frente da casa, estava alumiada e tinha
gente. A sala ficava ao rés-do-chão e as jane las estavam abertas. Parou a pouca distância, e
pôde distinguir o coronel-major ... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 93 | ||
do_obra_002091_050 | Mendonça voltou diretamente ao assunto que o preocupava.
— Estava ansioso por ver-te, disse ele. Não nos é possível falar agora; não temos
tempo. Mas quero dar-te um abraço, ao menos, um abraço de agradecimento pela felicidade...
— Parece que só esperavas a minha ausência?
— Creio que não. Já antes de seguires, co ... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 90 | ||
do_obra_002091_051 | sobre si mesma; a tranqüilidade não o conven ceu. Assim pensava, assim o disse, sem rebuço.
— Por que razão negaria eu a verdade? re torquiu Helena. Estácio ergueu os ombros.
— Supondo que você tenha razão, tornou ela, não deverei casar nunca?
— Não digo isso; mas, há dois caminhos para a felicidade, além de Mendon... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 105 | ||
do_obra_002091_052 | e sentia alguma coisa semelhante a um remorso. Uma voz interior parecia dizer-lhe: —
“Sonâmbula, abre os olhos, te m consciência de tuas ações; teu abraço enforca; teus
escrúpulos fazem-te odioso; tua solicitude é pior do que a cólera.” Viu o mancebo cortejar o
padre; deteve-o pelo braço.
— Onde vais? disse ele.
—... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 115 | ||
do_obra_002091_053 | Teria os olhos mais hábeis e felizes que os lábios do padre. Foi o que ela disse ao capelão.
— Tomo à minha conta efetuar este casamento, continuou Helena.
— Resolvida a tudo?
— A tudo.
— Mas, se ele insistir.
— Se ele insistir, vencê-lo-ei, ou por um modo ou por outro. Uma moça que quer ser
noiva, vale por um ex... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 132 | ||
do_obra_002091_054 | Alguma erva mofina brotava a custo junto às paredes, cobri ndo com folhas descoloridas o
chão desigual e úmido. Por baixo de uma das janelas havia um banco de pau, gretado pelo
tempo, com as bordas roliças de longo uso. Tudo ali respirava penúria e senilidade.
— Não, dizia Estácio consigo, não é este o asilo de um R... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 86 | ||
do_obra_002091_055 | Quando acabou de lavar os a rranhões de Estácio, — eram pouco mais do que isso, —
propôs-se a ir buscar um pedaço de pano. Est ácio, com a outra mão e os dentes, rasgou o
lenço que trazia, e o dono da casa completou o sumário curativo.
— Pronto! disse ele. Se tiver em cas a algum medicamento apropriado, será | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 78 | ||
do_obra_002091_056 | necessidade, talvez.
— Por quê?
— Podia fazer isto mesmo quando chegasse à casa.
— Mora perto?
— Um pedaço abaixo.
— Foi conveniente curar já; nenhuma precaução é inútil em coisa nenhuma da vida.
— Máxima de prudência, observou Estácio, procurando sorrir.
— Que só aprende tarde quem a não traz na massa do sangue... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 85 | ||
do_obra_002091_057 | mesmo tempo, ouviu-se um rumor na parte da cas a que ficava além da sala; Estácio voltou a
cabeça com um gesto de desconfiança. A porta abriu-se e apareceu uma preta velha trazendo
nas mãos uma bandeja. A criada estacou a meio caminho.
— Põe em cima da mesa, disse o dono da casa. É o meu almoço, continuou ele, | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 78 | ||
do_obra_002091_058 | franqueza com que ostentava aos olhos de um estranho a simplicidade de seus hábitos.
— Não é refeição de príncipe, dizia ele, mas satisfaz todas as ambições de um
estômago sem esperança. Aqui é a sala de vis itas e a sala de jantar; a cozinha é contígua;
além, ficam duas braças de quintal; para lá do quintal... o in... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 87 | ||
do_obra_002091_059 | digestão.
— Mora só?
— Só.
— Não tem família?
— Nenhuma.
— Há de achar-me singularmente indiscreto...
— Não; suponho que a sua curiosidade tem uma causa honrosa e legítima.
— Acertou; o senhor inspira- me simpatia. E se eu conh ecesse alguma dessas mãos
puras, que lhe emendam as lacunas da sorte.
— Dar-me-ia, ... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 114 | ||
do_obra_002091_060 | eternamente de dever qualquer melhora da sorte ao cumprimento de um dever de caridade.
— Já me não admira a vida pobre que tem tido.
— Excessivo escrúpulo, talvez?...
— Escrúpulo desarrazoado.
— Antes demais que de menos.
— Nem de menos nem demais; mas, só a porção justa.
— A porção varia, conforme as necessidad... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 90 | ||
do_obra_002091_061 | surpresa, conservou-se impassíve l e risonho. Curvou-se em sinal de agradecimento; e como
Estácio hesitasse em estender-lhe a mão, ele meteu as suas nas algibeiras.
— Talvez nos vejamos ainda, disse Estácio já fora da porta.
— Sim?
— Passeio algumas vezes por estes lados.
— Nem sempre estou em casa; mas, ainda est... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 88 | ||
do_obra_002091_062 | velha e o senhor moço. A causa daquilo era, com certeza, nhanhã Helena.
Estácio deu ordem para que a todas as pessoas estranhas se declarasse estar ausente a
família. A única exceção era o Padre Melchior. A esse escreveu pedindo-lhe que os fosse ver.
— Não posso esperar até amanhã, disse D. Úr sula; se tens de revel... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 84 | ||
do_obra_002091_063 | uma crise nova. Após dez minutos de profundo silêncio entre ambos, o padre falou.
CAPÍTULO XXIII
— És forte? perguntou o padre.
— Sou.
— Crês em Deus?
Estácio estremeceu e olhou para o ancião, sem responder. Melchior insistiu:
— Crês?
— Essa pergunta...
— É menos ociosa do que parece. Não basta supor que se... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 87 | ||
do_obra_002091_064 | por mais perigosa que fosse a situação revelada por ele, já agora não se podia desejar outra
coisa; a dignidade da família ficava intacta. Estácio refletiu largo tempo no que acabava de
ouvir. Mas a esperança foi curta, embora a necessidade dela fosse grande.
— Helena continua recolhida? perguntou o padre.
Estácio ... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 107 | ||
do_obra_002091_065 | um pouco menos agitada.
— Falou a Helena? perguntou ela, dirigindo-se ao padre.
— Ainda não; sei que não que r sair do quarto; deixemos passar a primeira comoção.
Amanhã virei saber tudo. Por hoje é preciso que a senhora sossegue.
— Oh! estou sossegada! Não perdi a confiança.
D. Úrsula proferiu estas palavras com ... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 91 | ||
do_obra_002091_066 | Essa menina nasceu em um dos momentos mais tristes da minha vida. Os primeiros caldos da
mãe foram obtidos por favor de uma mulher da vizinhança. Mas nasceu em boa hora, e foi um
laço mais que nos prendeu um ao outro. A pr esença de um ente novo, sangue do meu sangue,
fez-me redobrar de energia. Trabalhava com a lma... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 90 | ||
do_obra_002091_067 | me remeteu para as despesas de viagem e outras, deixei alguma coisa a Ângela e Helena, e
parti. Vinte e quatro horas depois de ver meu pai, tive a dor de o perder. A liquidação dos
negócios foi curta; os bens todos ficaram pertencendo aos credores; restavam-me alguns
patacões. Recebi esse golpe novo com a filosofia ... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 90 | ||
do_obra_002091_068 | cobertos, conforme Estácio os vira, no primeiro dia em que ali foi.
— Os meses e os anos passa ram, continuou Salvador. He lena deu entrada em um
colégio de Botafogo, onde recebeu apurada educação. O conselheir o a levou ali, dando-a
como órfã de um amigo de Mi nas; Ângela, que se dera por sua tia, ia buscá-la aos s... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 81 | ||
do_obra_002091_069 | quer alterar do que seu pai esta beleceu, e antes se sacrificar á do que envergonhará a filha.
Sente-se disposto a fazer o que ele recusa?
Estácio não respondeu; tinham entrado na chácara, e caminhavam lentamente na
direção da casa. Melchior deteve-o.
— Estácio! disse o padre, de pois de olhar para ele um instante.... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 85 | ||
do_obra_002091_070 | pudera resistir; mas o de líquio foi leve e curto. Voltando a si , Helena beijou ardentemente as
mãos de D. Úrsula e as do padre, estendeu a sua a Estácio, que a apertou; depois, com voz
trêmula, disse:
— Meu coração ficará etername nte grato ao resto de estima que não perdi; a situação
mudou, e força é mudar com e... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 93 | ||
do_obra_002091_071 | sentença no rosto de todos três.
— Ainda não, murmurou ela; ainda não é a morte.
D. Úrsula chegou-se-lhe mais perto, beijou-a, disse-lhe algumas palavras de conforto.
— Deixe estar, respondeu ela, deixe que eu não morro; estou só muito doente.
Estácio buscou animá-la, mas a voz morreu-lhe às primeiras expressões, e... | dominio_publico | null | null | Helena | Machado de Assis | 82 | ||
do_obra_017352_000 | LITERATURA BRASILEIRA
Textos literários em meio eletrônico
A Inglezinha Barcelos, de Machado de Assis
Edição referência: http://www2.uol.com.br/machadodeassis
Publicado originalmente em A Estação 1894
Eram trintonas. Cândida era casada, Joaninha solteira. Antes deste dia de março de
1886, viram-se pela primeira vez ... | dominio_publico | null | null | A Inglezinha Barcelos | Machado de Assis | 956 | ||
do_obra_017352_001 | Francisco. Talvez não fizesse nada, se não fosse a circunstância já dita de vê-la rezar a
todos os altares. Imaginou logo, não devoção nem promessa, mas uma alma
desesperada e solitária. A situação moral, se tal era, parecia-se com a dele; não foi
preciso mais para que se inclinasse à moça, e a acompanhasse até Catu... | dominio_publico | null | null | A Inglezinha Barcelos | Machado de Assis | 1,074 | ||
do_obra_017352_002 | haviam perdido; a verdade é que ela não o viu. A ilusão, porém, foi imensa, e o pobre
Caldas achou naquele movimento inconsciente da moça uma adesão, um convite, um
perdão, quando menos, e do perdão à cumplicidade bem podia não ir mais que um passo.
Assim correram dias e dias, semanas e semanas. No fim do ano, Caldas... | dominio_publico | null | null | A Inglezinha Barcelos | Machado de Assis | 464 | ||
do_obra_001883_000 | ato meu marido, com um sorriso vingativo, disse-me estas palavras rindo-se:
- Estimei isto.
- Isto? perguntei eu franzindo a testa.
- Este espetáculo deplorável. Fizeste da vinda hoje ao teatro um capítulo de
honra; estimo ver que o espetáculo não correspondeu à tua expectativa.
- Pelo contrário, acho magnífico. ... | dominio_publico | null | null | Confissões de uma Viúva | Machado de Assis | 83 | ||
do_obra_001883_001 | Eu recuei dous passos.
- Oh! não tenha medo. Causo-lhe medo?
- Medo? retorqui eu com altivez.
- Asco? perguntou ele.
- Talvez... murmurei.
- Uma única resposta, tornou Emílio; conserva aquela carta?
- Ah! disse eu. Era o autor da carta?
- Era. E aquele misterioso do corredor do Teatro Lírico. Era eu. A carta?
... | dominio_publico | null | null | Confissões de uma Viúva | Machado de Assis | 90 | ||
do_obra_001883_002 | nossos próprios olhos. Não haverá um recanto no mundo em que possamos
viver, longe de todos e perto do céu?
- Fugir?
- Sim!
- Oh! isso nunca!
- Não me amas.
- Amo, sim; é já um crime, não quero ir além.
- Recusas a felicidade?
- Recuso a desonra.
- Não me amas.
- Oh! meu Deus, como respondê-lo? Amo, sim; mas... | dominio_publico | null | null | Confissões de uma Viúva | Machado de Assis | 85 | ||
do_obra_001883_003 | de olhar com desprezo?
- Desprezo? Não vejo...
- Como não? Que te mereceria eu depois?
- Oh! esse sacrifício seria feito por minha causa, eu fora covarde se te
lançasse isso em rosto.
- Di-lo-ias no teu íntimo.
- Juro que não.
- Pois a meus olhos é assim; eu nunca me perdoaria esse erro.
Emílio pôs o rosto nas ... | dominio_publico | null | null | Confissões de uma Viúva | Machado de Assis | 119 | ||
do_obra_001921_000 | Machado de Assis
I - O FIM DA CARTA.
— Mas que pretendes fazer agora?
— Morrer.
— Morrer? Que idéia! Deixa-te disso, Estêvão. Não se morre por tão pouco...
— Morre-se. Quem não padece estas dores não as pode avaliar. O golpe foi profundo, e o meu coração é
pusilânime; por mais aborrecível que pareça a idéia da ... | dominio_publico | null | null | A Mão e a Luva | Machado de Assis | 129 | ||
do_obra_001921_001 | foi o primeiro a recordar-se dela.
— Dá tempo ao tempo, respondeu Luís Alves, e ainda te hás de rir dos teus planos de
ontem. Sobretudo, agradece ao destino o haveres escapado tão depressa. E queres um conselho?
— Dize.
— O amor é uma carta, mais ou menos longa, escrita em papel velino, corte dourado, | dominio_publico | null | null | A Mão e a Luva | Machado de Assis | 76 | ||
do_obra_001921_002 | Uma noite assistira à representação de 0telo, palmeando até romper as luvas, aclamando
até cansar-lhe a voz, mas acabando a noite satisfeito dos seus e de si. Terminado o espetáculo, foi
ele, segundo costumava, assistir à saída das senhoras, uma procissão de rendas, e sedas, e leques,
e véus, e diamantes, e olhos de... | dominio_publico | null | null | A Mão e a Luva | Machado de Assis | 96 |
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