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|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
do_obra_016924_024 | gente não era muita; sabe-se que parte da população está fora daqui. Metade dos
fiéis ali presentes eram senhoras, e senhoras de chapéu. Nunca. me esqueceu o
escândalo produzido pelos primeiros chapéus que ousaram entrar na igreja em tais
dias; escândalo sem tumulto, nada mais que murmuração. Mas o costume venceu a | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 79 | ||
do_obra_016924_025 | é inferior, mas até certo ponto é superior. Martinha não profere uma frase de Tito
Lívío, não vai a João de Barros, alcunhado o Tito Lívio português, nem ao nosso
João Francisco Lisboa, grande escritor de igual valia. Não quer sanefas literárias,
não ensaia atitudes de tragédia, não faz daqueles gestos oratórias que a ... | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 82 | ||
do_obra_016924_026 | varie de espetáculo. Tudo fandango, minha senhora! Seria demais.
— Como o senhor é perverso!
— Eu? Mas ...
— Vamos aos outros sucessos destes sete dias; trago muitos.
— Perdão; quero primeiro lavar-me da pecha que me pôs. Eu perverso?
— Danado.
— Eu danado? Mas em que é que sou danado e perverso? Não lhe disse, | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 78 | ||
do_obra_016924_027 | Digo que aprovo, mas com restrições, porque não há amigos que me arranquem de
casa, para ir cuidar dos seus negócios. Os amigos têm outros fins, se não amigos,
se não são mandados pelo diabo para tentar um homem que está quieto.
Não obstante a pequena concorrência, parece que o rumor do debate foi | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 75 | ||
do_obra_016924_028 | versos, os Versos, de Júlia Cortines. Esta poetisa de temperamento e de verdade
disse-me cousas pensadas e sentidas, em uma linguagem inteiramente pessoal e
forte. Que poetisa é esta? Lúcio de Mendonça é que apresenta o livro em um
prefácio necessário, não só para dar-nos mais uma página vibrante de simpatia, mas | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 78 | ||
do_obra_016924_029 | assombro vem de que eu considerava o jóquei parte integrante do cavalo. Cuidei
que, lançados na corrida, formavam uma só pessoa, moral e física, um lutador único.
Não supunha que as duas vontades se dividissem, a ponto de uma correr com
ânimo de ganhar a palma, e outra de a perder; menos ainda que o complemento | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 78 | ||
do_obra_016924_030 | expediente andam suspensos por ações semelhantes. Não hão de ir puxar carroça.
Vocação teatral não creio que possuam. Se são ricos, bem; mas, então, por que é
que não fundaram, há dous ou três anos, uma sociedade bancária, ou de outra
espécie, onde podiam agora atrapalhar a marcha dos outros cavalos, esporear as | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 78 | ||
do_obra_016924_031 | éguas alheias, e, em caso de necessidade, correr sem ânimo de ganhar a partida?
Este último ponto não seria comum, antes raríssimo; mas basta que fosse possível.
Nem é outra a regra cristã, que manda perder a terra para ganhar o céu. Sem contar
que não haveria suspensões nem multas.
[146]
[11 novembro] | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 75 | ||
do_obra_016924_032 | problema. Que queria dizer essa multidão de cidadãos com um voto cada um? A
razão e a memória explicaram-me o caso. A memória repetiu-me a palavra que ouvi,
há ano, a alguém, eleitor e organizador de uma lista de candidatos à deputação.
Vendo-lhe a lista, composta de nomes conhecidos, exceto um, perguntei quem era
este... | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 119 | ||
do_obra_016924_033 | hoje esta afluência de lembranças poéticas é porque a poesia é também um
mistério, e todos os mistérios são mais ou menos parentes uns dos outros. Suponho,
não afirmo; depois do que tenho lido sobre o famoso bacilo, não afirmo nada;
também não nego. Autoridades respeitáveis dizem que o bacilo mata, pelo modo
asiático; ... | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 93 | ||
do_obra_016924_034 | ainda não sei se digo direito, — a tal moléstia nova, que é bem antiga, é a que
chamávamos espinhela caída. Ou intendente será assim cousa de dentes? ... O
patrão desculpe; eu não andei por escolas; não aprendi leis nem medicina...
— José Rodrigues, há cousas que, não se entendendo logo, nunca mais se | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 75 | ||
do_obra_016924_035 | anatomia ou neurastenia. Pois, sim, senhor. Intendente o mesmo que vereador.
Cura-se então com o Paiva do anúncio? Mas se o Paiva é remédio, conforme diz o
patrão, não entendo que se aplique a neurastenia ou intendente ...
— Tu não estás bom, José Rodrigues; vai-te embora.
— Para dizer a minha verdade, bom, bom, não es... | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 86 | ||
do_obra_016924_036 | melhor o xarope, se o Paiva. Talvez Paiva seja mais barato que o xarope. Isto de
remédios, não é o serem mais caros ... As vezes os mais caros não prestam para
nada, e um de pouco preço cura que faz gosto. Mas, enfim, não faço questão de
preço. A saúde merece tudo: Vou ao Paiva... isto é, o jornal fala também de um | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 79 | ||
do_obra_016924_037 | é que eu não estou, e então volta para casa.
— Muito bem; mas se o patrão lá estiver, que quer que lhe faça?
— Puxa-me o nariz.
— Ah! isso não! Confianças dessas não são comigo. Gracejar, gracejo e o
patrão faz-me o favor de rir; mas não se puxa o nariz a um homem ...
— Bem, dá-me então as boas tardes e vem-te embora p... | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 86 | ||
do_obra_016924_038 | salteadores; pouco é o chão seguro debaixo dos pés das belas italianas ou do
fortíssimo Crispi. Na Hungria houve um tremor há dous dias; outras partes do mundo
têm sido abaladas.
Andará a terra com dores de parto, e alguma cousa vai sair dela, que
ninguém espera nem sonha? Tudo é possível! Quem sabe se o planeta novo n... | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 81 | ||
do_obra_016924_039 | Poucos anos depois, tornando a vê-lo, caiu-me a alma aos pós a alma e o
chapéu, porque ia justamente cumprimentá-lo, quando lhe ouvi dizer com a voz
trêmula e abafada: “Suponho ... ouvi que ... dar-se-á que seja? ... Tudo é possível“.
Não me conhecia! Respondi-lhe que era eu mesmo, em carne e osso, e indaguei da
saúde ... | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 98 | ||
do_obra_016924_040 | depois do direito, e com um grande suspiro, redargüiu que ouvira dizer que ia bem,
mas não podia afirmá-lo; era matéria incerta. “Macacoa“, disse-lhe eu rindo para
animá-lo. “Também não, isto é, creio que não“, respondeu o homem. Dei-lhe o
braço, e convidei-o a ir tomar café ou sorvete. Hesitou, mas acabou aceitando. | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 79 | ||
do_obra_016924_041 | concordou que sim, embora pudesse ser que não. Um cético! um triste cético!
Que é isto senão a sorte? A sorte, e só ela, tirou ao velho Constar o gosto das
idéias definitivas e dos fatos averiguados. A sorte, e só ela, decidirá da eleição do
dia 6 de janeiro. Podem contar, somar e multiplicar os votos; a eleição há de ... | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 81 | ||
do_obra_016924_042 | às avessas. Naturalmente, ralho.
— Mas, patrão, eu pensava...
— José Rodrigues, brado-lhe exasperado; deixa de pensar alguma vez na
vida.
— Há de perdoar, mas o pensamento é influência que vem dos astros;
ninguém pode ir contra eles.
— Ouço, calo-me e vou andando. Nos dias que correm, ter um criado que | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 75 | ||
do_obra_016924_043 | tempestade de vozes duras e vibrantes. Posto soubesse que se despedia a si
mesma, a Câmara votou uma moção de despedida ao ministério conservador. Um
só espírito supôs que a moção podia desfazer o que estava feito: não me lembra o
nome, talvez não soubesse ler em política, e daí essa credulidade natural, que se | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 78 | ||
do_obra_016924_044 | novembro, vida agitada e rápida, tão depressa quão cheia de sucessos.
Mas, como digo, os mortos não vão tão depressa que se percam todos de nossa
vista. Ontem era um ex-chefe de Estado que a população conduzia ou via conduzir
ao último jazigo. Hoje comemora-se o centenário de um poeta. Digo mal. Nem se | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 75 | ||
do_obra_016924_045 | apareceu aqui uma poliantéia; daí em diante tudo ou quase tudo se fez por essa
forma. A cousa, desde que lhe não presida o gosto e a escolha, descai naturalmente
até a vulgaridade; o nome, porém, fá-la-á sempre odiosa, tão usado e gasto se acha.
Não lhe ponham tal designação; qualquer outra, ou nenhuma, é preferível, p... | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 80 | ||
do_obra_016924_046 | batalhas é agradável ao espírito. As proclamações napoleônicas, as descrições
homéricas, as oitavas camoneanas, lidas no gabinete, dão idéia do que será o
próprio espetáculo no campo. A mais de um combatente ouvi contar as belezas
trágicas da luta entre homens armados, e tenho acompanhado muita vez o jovem
Fabrício del... | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 95 | ||
do_obra_016924_047 | que vem dizer ou fazer alguma cousa. Como essa cousa, se a houver, é certamente
política, troco de caminho e torno-me às letras, ainda que aí mesmo ache o culto
espírito do Sr. Rui Barbosa, que também as prática e com intimidade. Não importa,
aqui, o que houver de dizer ou fazer, será bem-vindo a todos. | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 76 | ||
do_obra_016924_048 | capacidade política, admirado pelos dotes oratórios, invejado talvez pelos seus
célebres amores. Uma grande beleza do tempo andava desde muito ligada ao seu
nome. Perdoe-me esta menção. Era uma senhora alta, outoniça... São migalhas da
história, mas as migalhas devem ser recolhidas. Ainda agora leio que, entre as
relíq... | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 97 | ||
do_obra_016924_049 | personagens vivem, interessam e comovem. A própria terra vive. A miragem, que dá
o título ao livro, é a vista ilusória de Tadeu, relativamente ao futuro trabalhado por
ele, e o desmentido que o tempo lhe traz, como ao que anda no deserto.
Não posso dizer mais; chegaria a dizer tudo. A arte dos caracteres mereceria | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 78 | ||
do_obra_016924_050 | achando-se só com uma senhora. Sardou? Não afirmo que fosse ele, podia ser
Barrière ou outro: foi uma peça que vi há muitos anos no extinto Teatro de S.
Januário, crismado depois em Ateneu Dramático, também extinto, ou no Ginásio
Dramático tão extinto como os outros. Tudo extinto; não me ficaram mais que | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 76 | ||
do_obra_016924_051 | Clemente, apresentado ao juiz municipal de Grão Gogol, Dr. Belisário da Cunha e
Melo, ao qual estava sujeito o termo de Salinas, onde se deu o cave.
Não era este Clemente nenhum vadio, que preferisse comer um homem a
pedir-lhe dez tostões pare comer outra cousa. Era lavrador tinha vinte e dois anos de
idade. Confessou ... | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 95 | ||
do_obra_016924_052 | da civilização.
[167]
[18 setembro]
Não me falem de anistias, nem de chuvas, nem de frios, nem do naufrágio do
Britânia, nem do eclipse da semana. Há pessoas que trazem de cor os eclipses.
Também eu fui assim, graças aos almanaques. Um dia, porém, vendo que o sol e a
lua, posto que primitivos, eram ainda os melhores ... | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 87 | ||
do_obra_016924_053 | poderosas, e outros a pessoas eclesiásticas, mandou que daqui em diante se não
dêem mais a semelhantes pessoas, senão dando fiadores chãos e abonadores ...
Os próprios governadores não escaparam a este terrível ouvidor-geral, que
também mandou que por nenhum cave de hoje em diante se dê mais a nenhum | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 75 | ||
do_obra_016924_054 | a quem Londres dá a hospedagem que distribui a todos, desde os Bourbons até os
Barbès. De momento, não posso afirmar que Barbès estivesse em Londres; mas
ponho-lhe aqui o nome, por se parecer com Bourbons e contrastar com eles nos
princípios sociais e políticos. Assim se explicam muitos erros de data e de biografia: | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 79 | ||
do_obra_016924_055 | deseja falar: é o nosso Luís de Castro que vai fazer a sue reportagem fluminense.
Luísa Michel ficará admirada da correção com que o representante da Gazeta de
Notícias fala francês. Perguntar-lhe-á se nasceu em França.
—Não, minha senhora, mas estive lá algum tempo; gosto de Paris. amo a
língua francesa. Venho da part... | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 92 | ||
do_obra_016924_056 | declarar se vencerá o carneiro ou o leão.
— O carneiro, minhas senhoras; o carneiro é o povo, há de vencer, e o leão
será esmagado.
— Então não devemos comprar no leão?
— Não comprem nem vendam. Que é comprar? Que é vender? Tudo é de
todos. Oh! esqueçam essas locuções, que só exprimem idéias tirânicas. | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 76 | ||
do_obra_016924_057 | espanhol ao chefe da comissão,—santa, três vezes santa anarquia! Que me vindes
pedir. vós outros, proprietários? que vos defenda os aluguéis? Mas que são
aluguéis? Uma convenção precária, um instrumento de opressão, um abuso da
força. Tolerado como a tortura, a fogueira e as prisões, os aluguéis têm de acabar | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 78 | ||
do_obra_016924_058 | secreto) de ir ler feócrito, debaixo de alguma árvore da Elélade. Imaginem que é
moço, como a antiguidade, ingênuo e bom, ama e vai casar. Pois com tudo isso, não
pôde mais que distrair-me, apenas me deixou, as sombras envolveram-me outra
vez.
Então, lembrei-me do caso daquela Inês, moradora à Rua dos Arcos n.°
18,... | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 98 | ||
do_obra_016924_059 | Conheceis todo o resto desse prefácio do Filho Natural, não esquecestes a famosa e
célebre página em que o autor da Dama das Camélias faia ao autor de Antony:
“Então começastes esse trabalho ciclópico que dura há quarenta anos...“
Também o dele durou quarenta anos. A mais de um espantou agora a notícia | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 75 | ||
do_obra_016924_060 | me escapa. Podem arregimentar diante de mim os algarismos mais compridos,
somá-los, diminuí-los, multiplicá-los, reparti-los, e eu conheço se as quatro
operações estão certas, mas o que elas podem dizer, financeiramente falando, não
sei. Há pessoas que não confessam isto, por motivos que respeito; algumas chegam | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 78 | ||
do_obra_016924_061 | uma pretora desta cidade. Vinte e um votaram ao cartório, mas um deles não trazia
petição inicial nem sentença, por modo que ficou o processo inútil. Uma destas
manhãs, estando o pretor ocupado, v eram dizer-lhe que acabavam de furtar mais
autos, correu ao cartório, viu que era exato. O mesmo pretor despediu há dias um | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 80 | ||
do_obra_016924_062 | homens. São convivas do primeiro jantar mensal da Revista Brasileira. O principal de
todos, José Veríssimo, chefe da Revista e do Ginásio Nacional, recebe-me, como a
todos, com aquela afabilidade natural que os seus amigos nunca viram desmentida
um só minuto. Os demais convivas chegam, um a um, a literatura, a política... | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 80 | ||
do_obra_016924_063 | vacilante a alma do leitor. Homens tais não parecem artífices de primeira qualidade,
espíritos capazes de levar a cabo as questões mais complicadas deste mundo?
Não quero tocar no caso de Paradeda Júnior, que lá vai mar em fora, por
achá-lo tardio. Meio século antes, era um bom assunto de poema romântico. | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 76 | ||
do_obra_016924_064 | Ora bem, os fardos e caixas cujos os direitos dizem ter sido desfalcados, não
serão propriamente remédios? As guias de pagamento de taxas na alfândega não
serão fórmulas de reclamo? – “Eu era assim (4:954$723); — ia quase ficando assim
(4723); — mas acabei ficando assim (954$723), depois que tomei tal droga.“ A | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 78 | ||
do_obra_016924_065 | esperanças. Dá-lhe os dias contados. Aguardemos a hora última desse homem que
levará o nome brasileiro deste para o século novo, e cujas obras servirão de
estímulo e exemplar às vocações futuras. A vida dele é conhecida; mas nem todos
terão as sensações dos primeiros dias, quando Carlos Gomes chegou de S. Paulo e | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 78 | ||
do_obra_016924_066 | nossos dois hóspedes. Moreira de Sá e Viana da Mota, no Teatro lírico. Hoje a
crítica das folhas da manhã dirá deles o que couber e for de justiça, e estou que não
será frouxo, nem pouco. Eu não tenho mais que ouvidos, e ouvidos de curioso, que
não valem muito: mas, em suma, mais terei desprendido com os olhos que co... | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 81 | ||
do_obra_016924_067 | Mas no ano 2000 os contos de Mérimée terão século e meio. Que é século e
meio! No mês findo, o poeta laureado de Inglaterra falou no centenário da morte de
Burns, cuja estátua era inaugurada; parodiou um dito antigo, dizendo enfaticamente
que não se pode julgar seguro o renome de um homem antes de 100 anos depois | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 78 | ||
do_obra_016924_068 | nas bibliotecas, onde a curiosidade os vai ver, e donde podem sair em parte para a
história, em parte para os florilégios. Ora, esse prolongamento da vida, curto ou
longo, é um pequeno retalho de glória. A imortalidade é que é de poucos.
Não há muito, comemoramos o centenário de José Basílio, e ainda ontem | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 76 | ||
do_obra_016924_069 | perguntam-me. Em vão leio os jornais; o câmbio não sobe de 9. O que faz é variar;
ora é 9 1/8, ora 9 1/4, ora 9 3/8. Dorme-se com ele a 9 5/16, acorda-se a 93/4. Ao
meio-dia está a 91/2. Um eterno vaivém na mesma eterna casa. Sucedeu o que se
dá com tudo; habituei-me a essa triste especulação de 9, e dei de mão a todas... | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 80 | ||
do_obra_016924_070 | se vendido ações do Banco Emissor de Pernambuco a mil e quinhentos; as
debêntures da Leopoldina chegaram a obter seis mil setecentos e cinqüenta; das
ações da Melhoramentos do Maranhão havia ofertas a quatro mil e quinhentos, mas
ninguém lhes pegava. Dobrei a esquina, entrei na Rua Primeiro de Março, em
direção ao Carc... | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 117 | ||
do_obra_016924_071 | Parei e disse comigo: Contrastes da vida, que são as obras da imaginação ao
pé de vós? Nenhuma daquelas pombas pensa no câmbio, nem na baixa, nem no
que há de vestir, nem no que há de comer. Eis ali a verdadeira gente cristã, eis o
sermão da montanha, a dous passos dos bancos, às próprias barbas destas casas | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 77 | ||
do_obra_016924_072 | confirma esta dedução. Carlos Gomes continua a morrer. Até quando irá morrendo?
A ciência dirá o que souber; mas ela também sabe que não pode crer em si mesma.
Não me acuseis de teimar neste chão melancólico. O livro da semana foi um
obituário, e não terás lido outra cousa, fora daqui, senão mortes e mais mortes. Não | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 79 | ||
do_obra_016924_073 | Jonatas. Portanto, se alguns forem ali presos, não é porque, unidos no espiritual,
não o estão no temporal. A cadeia fez-se para os corpos. Todos eles têm amigos
seus, que o acompanham no infortúnio, como na prosperidade; mas tais amigos não
vão atrás de uma nova doutrina de Jesus, vão atrás dos seus padres. | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 77 | ||
do_obra_016924_074 | senhoras que não duvidavam passar da sociedade ao palco, para auxiliar aquela
obra. Cantava o fundador, D. José Amat, cantava o Ribas, cantavam outros. Nem foi
só Carlos Gomes que ali ensaiou os primeiros vôos; outros o fizeram também, ainda
que só ele pôde dar o surto grande e arrojado...
Aí estou eu a repetir cousas ... | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 129 | ||
do_obra_016924_075 | Nem por isso deixarão de falir os que tiverem de falir, se forem negociantes;
não há nome de esquina que pague um crédito. Este momento, se é certo o que
corre, ameaça de ponto final a muita gente. Dizem que há numerosas petições de
falência. Se serão atendidas é o que não se sabe, porque o deferimento pode trazer | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 78 | ||
do_obra_016924_076 | talento, que encantaram o salão repleto. Não é a primeira vez que a comissão do
Coração de Jesus ajunta ali a flor da cidade. Aos esforços das senhoras que a
compõem correspondem os convidados, — e desta vez apesar do tempo, que era
execrável, — e aos convidados, em cujo número se contava agora o Sr. vice- | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 76 | ||
do_obra_016924_077 | alguma, e um opulento, crendo ser pobre, dá cabo da vida para fugir à mendicidade.
Tudo é reflexo da consciência.
Não mofeis de mim, se achais aí um ar de sermão ou filosofia. O meu fim não
é só contar os atos ou comentá-Ios; onde houver uma lição útil é meu gosto e dever
tirá-la a divulgá-la como um presente aos leito... | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 89 | ||
do_obra_016924_078 | saem da pasta do poeta, para a luz do dia, como segredos guardados, até agora;
são recolhidos de jornais e revistas, por onde Lúcio de Mendonça os foi deixando. O
mérito não é igual em todos; a “Flor do Ipê, a “Tapera“, a “Ave-Maria“, para só citar
três páginas, são melhor inspiradas e bem compostas que outras, — verso... | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 100 | ||
do_obra_016924_079 | cinco mil almas, fizeram uma lei reguladora dos nascimentos, para que nunca esse
número seja excedido; único modo, dizem, de se conservarem segregados da
cobiça e da inveja do universo. Não é essa a menor esquisitice desta pequena
nação; outras muitas tem, e todas serão contadas na obra que empreendi. | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 75 | ||
do_obra_016924_080 | que briga lá fora“. A celebridade, caro e tapado leitor, é isto mesmo. O nome de
Antônio Conselheiro acabará por entrar na memória desta mulher anônima, e não
sairá mais. Ela levava uma pequena, naturalmente filha; um dia contará a história à
filha, depois à neta, à porta da estalagem, ou no quarto em que residirem.
Es... | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 98 | ||
do_obra_016924_081 | cumprir-se e não se cumprem. Vereis que ainda caem como as reformas cubanas,
que, depois de tanto sangue derramado, vieram pálidas e mofinas. Ninguém as
quer, e o ferro e o fogo continuam a velha obra. Assim se vai fazendo a história, com
aparência igual ou vária, mediante a ação de leis, que nós pensamos emendar, | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 78 | ||
do_obra_016924_082 | Leitor. Deus gastou seis dias em fazer este mundo, e repousou no sétimo.
Ora, Deus podia muito bem não repousar, mas quis deixar um exemplo aos homens.
Daí o nosso velho descanso de um dia, que os cristãos chamaram do Senhor. Eu
não sou Deus, leitor; não criei este mundo, tanto que lhe acho algumas imperfeições, | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 78 | ||
do_obra_016924_083 | Antes de a empenhar, devia ir ter a alguém que 1he desse um prato de sopa.
“Cidadão, estou sem comer há dous dias e tenho de pagar a conta da botica, que
não quisera desfazer-me desta espada, que batalhou pela glória e pela liberdade...“
8 impossível que acabasse o discurso. O boticário perdoaria a conta, e duas ou trê... | dominio_publico | null | null | A Semana | Machado de Assis | 99 | ||
do_obra_001876_000 | Mascarenhas me pediu, e a muito custo, não porque o não julgue pessoa capaz, mas porque os livros e
papéis de meu marido ninguém mexe neles.
— Creia que agradeço muito...
— Pode agradecer, interrompeu ela sorrindo; não faria isto a outra pessoa. Precisa ver tudo?
— Não posso dizer se tudo; depois de um rápido exame... | dominio_publico | null | null | Casa Velha | Machado de Assis | 87 | ||
do_obra_001876_001 | preciso. E V. Ex.a também há de ser um livro para mim, e o melhor livro, o mais íntimo. . .
— Como ?
— Espero que me conte algumas cousas, que hão de ter ficado escondidas. As histórias
fazem-se em parte com as noticias pessoais. V. Ex.a, esposa de ministro. . .
D. Antônia deu de ombros.
— Ah! eu nunca entendi d... | dominio_publico | null | null | Casa Velha | Machado de Assis | 112 | ||
do_obra_001876_002 | lembrança do finado. Aceitei-a constrangido; falamos ainda da viagem, duas palavras apenas, e fiquei
só.
Não estava contente comigo. Tinha-me deixado resvalar a uma promessa inconsiderada, cuja
execução parecia complicar-se de circunstâncias estranhas e obscuras, provavelmente sérias. As
instâncias de D. Antônia, a... | dominio_publico | null | null | Casa Velha | Machado de Assis | 98 | ||
do_obra_001876_003 | irregularidades na vida. Mascarenhas não sabia nada.
— Até aqui suponho que é um modelo de sossego e seriedade, concluiu ele. Verdade seja
que só vou lá aos domingos.
— Mas pelos domingos tiram-se os dias santos, repliquei rindo.
Félix voltou da roga dous dias depois, num sábado. No domingo não fui lá. Na | dominio_publico | null | null | Casa Velha | Machado de Assis | 77 | ||
do_obra_001876_004 | daria têmpera ao espírito. Escutou calado, mas sem atenção fixa, e quando acabei, declarou ultimando
tudo:
— Bem, pode ser que me resolva; veremos. Não vai já? Então depois falaremos disto; pode
ser... E o seu trabalho, está adiantado?
Não insisti, nem voltei ao assunto, apesar da mãe, que me falou algumas vezes de... | dominio_publico | null | null | Casa Velha | Machado de Assis | 80 | ||
do_obra_001876_005 | Lalau olhou espantada.
— Onde estava o senhor padre? Estava no céu, espiando.
— Ora! diga onde estava.
— Já disse: estava no céu.
— Adeus! diga onde estava!
— Lalau! que modos são esses? repreendeu D. Antônia.
A moça calou-se aborrecida; eu é que fui em auxilio dela, e contei-lhe que estava à janela da | dominio_publico | null | null | Casa Velha | Machado de Assis | 77 | ||
do_obra_001876_006 | palavra, não destoar nunca da consideração que me devia; e tanto era curiosa como franca.
— Teve medo? disse ela.
— Como é que a senhora entrou?
— Entrando; vi o senhor aqui, e vim muito devagar, pensando que não chegasse ao fim da
sala, sem que o senhor me ouvisse, mas não ouvi nada, todo embebido no que está es... | dominio_publico | null | null | Casa Velha | Machado de Assis | 121 | ||
do_obra_001876_007 | Lalau encolheu os ombros.
— Fez mal, disse eu. Olhe que eu sou padre, posso pregar-lhe um sermão.
— O senhor prega sermões? por que não vem pregar aqui, na quaresma? Eu gosto muito de
sermões. No ano passado, ouvi dous, na igreja da Lapa, muito bonitos. Não me lembra o nome do
padre. Eu, se fosse padre, havia de pr... | dominio_publico | null | null | Casa Velha | Machado de Assis | 93 | ||
do_obra_001876_008 | entrava o Félix; exclusão que podia ser natural, mas que me não pareceu casual. Como eu lhe dissesse
que não se deve mofar dos padres, ela ficou muito séria e atenta; depois rompeu, rindo:
— Mas não é do senhor.
— De mim ou de outro, é a mesma cousa.
— Ora, mas o outro era tão feio, tão lambuzão. . .
Disse-lhe, co... | dominio_publico | null | null | Casa Velha | Machado de Assis | 99 | ||
do_obra_001876_009 | parava e olhava de cima as figuras desbotadas no chão; outras vezes deixava escorregar o pé, de
propósito. Tinha o rasgo pueril de achar prazer em qualquer cousa.
— Está bom, está bom, disse-me ela finalmente, não precisa brigar comigo; não falo mais do
capelão. Pode continuar o seu trabalho, vou-me embora.
— Não é... | dominio_publico | null | null | Casa Velha | Machado de Assis | 130 | ||
do_obra_001876_010 | uma feição, alguma cousa especial e genuína que não possuíram nunca as outras mães.
— Deus que a chamou para si, disse-lhe eu, lá sabe por que é que o fez. Agora tratemos dos
vivos. Ela está no céu, a senhora está aqui, ao pé de pessoas que a estimam. . .
— Oh! eu dava tudo para tê-la ao pé de mim, na nossa casinha ... | dominio_publico | null | null | Casa Velha | Machado de Assis | 160 | ||
do_obra_001876_011 | fazer política. Cada qual como Deus o fez. O senhor, se sair a seu pai, é que há de ser ativo, e bem
ativo. A cousa é para breve?
Não me respondeu nada; tinha os olhos fora dali. Mas logo depois, advertido pelo silêncio:
— O quê? Ah! não é para já; estou arranjando as cousas. Estive com alguns amigos de papel, | dominio_publico | null | null | Casa Velha | Machado de Assis | 78 | ||
do_obra_001876_012 | idade de constituição é que era bom; ia-se embora o Regente e o resto. . . Pois é verdade, creio que
sim. . . Entretanto, nunca tinha pensado nisto seriamente; mas as cousas são assim mesmo. . . Que
acha?
— Acho que fez bem.
— Em todo o caso, peco-lhe segredo; não diga nada a mamãe.
— Crê que ela se oponha?
— Não... | dominio_publico | null | null | Casa Velha | Machado de Assis | 101 | ||
do_obra_001876_013 | As pessoas de meu temperamento entender-me-ão. Bastou que uma idéia se me afigurasse
possível para que eu a acreditasse certa. Vi a menina perdida. Não houvera ali uma agregada, seduzida
em 1835, por um saltimbanco, como me dissera D. Antônia? Agora não seria um saltimbanco, mas o
próprio filho da dona da casa. E as... | dominio_publico | null | null | Casa Velha | Machado de Assis | 96 | ||
do_obra_001876_014 | da mesma condição que ela, mas muito inferior moralmente, e será um mau casamento.
Félix dividia os olhos entre mim e a ponta do sapato. Quando acabei, achou-me razão.
— Não lhe parece? perguntei.
— Decerto.
— Bem sei que é esquisito meter-me assim em cousas alheias...
— Nada é alheio para um bom padre como o senh... | dominio_publico | null | null | Casa Velha | Machado de Assis | 109 | ||
do_obra_001876_015 | mas temo que não seja por muito tempo. . . Não se lembra que mamãe já lhe pediu uma vez para
levar-me à Europa? Era com o mesmo fim de afastar-me, distrair-me, e casá-la.
— Acha isso?
— Com certeza.
— Como explica então que ela continue a ter tanto amor à pequena?
— O senhor não conhece mamãe. E um coração de pomb... | dominio_publico | null | null | Casa Velha | Machado de Assis | 112 | ||
do_obra_001876_016 | ser deputado; pedia-me duas cousas, a primeira é que o dissuadisse.
— Mas por quê? disse-lhe eu. A política foi a carreira do pai, é a carreira principal no Brasil.
. .
— Vá que seja; mas, Reverendíssimo, ele não tem jeito para a política.
— Quem lhe disse que não? Pode ser que tenha. No trabalho é que se conhece o... | dominio_publico | null | null | Casa Velha | Machado de Assis | 83 | ||
do_obra_001876_017 | dificilmente se ajustariam às peregrinações; salvo se adotássemos um meio-termo: enviá-lo casado.
— Não se arranja uma noiva com um simples baú de viagem, disse ela.
— Está arranjada.
D. Antônia estremeceu.
— Está aqui perto; é a sua boa amiga e pupila.
— Quem? Lalau? Está caçoando. Lalau e meu filho? Vossa Revere... | dominio_publico | null | null | Casa Velha | Machado de Assis | 85 | ||
do_obra_001876_018 | aqui em casa . . .
— Desde quando?
— Sei lá! desde meses. Desconfiei que se namoravam, e tenho feito o que posso, mas vejo
que não posso muito.
— Entretanto, continua a recebê-la.
— Sim, para vigiá-la. Antes a quero aqui que fora daqui.
— Não é então porque a estima?
— E também porque a estimo. Infelizmente, por... | dominio_publico | null | null | Casa Velha | Machado de Assis | 132 | ||
do_obra_001876_019 | alguns segundos, com palavras não claras e seguidas, senão ínvias e dúbias. Contava comigo ao lado
dela, desde que soubesse a verdade. . . mas que a apoiasse já. . . depois.. . então. . .
— A verdade? repeti eu. Que verdade?
— Vamos embora.
— Diga-me tudo, a ocasião é única, estamos perto de Deus. . .
D. Antônia e... | dominio_publico | null | null | Casa Velha | Machado de Assis | 124 | ||
do_obra_001876_020 | Raimundo calara-se para mirar a cena, porque ele queria muito às filhas, e gostava devê-las acariciadas
também. Nisto ouvimos passos na sala contígua, e daí a nada entrava na varanda o filho de D. Antônia.
— Ora, viva! bradou o coronel. Estávamos à espera de você para um solo.
— Vá, vá, acudiu a baronesa, levantando... | dominio_publico | null | null | Casa Velha | Machado de Assis | 117 | ||
do_obra_001876_021 | noiva distinta e graciosa, e da riqueza que viria com ela. Olhei para ele; vi-o falando com a tia de
Lalau.
— Valeu? perguntou-lhe o coronel de longe.
— Hoje, não. Bem, amanhã, depois do almoço.
— A senhora não perde as novenas da Glória, disse Félix a Mafalda.
— É minha devoção antiga; e gosto de ir com Lalau, ... | dominio_publico | null | null | Casa Velha | Machado de Assis | 88 | ||
do_obra_001876_022 | outras pessoas, enquanto a sege ia andando, e o moço subia os degraus.
— Nhãtônia, disse o coronel rindo, este seu filho dava para camarista do paço.
D. Antônia, escandalizada, tinha entre as sobrancelhas uma ruga, e olhou sombria para o
filho. Quero crer que este incidente foi a gota que fez entornar do espírito de... | dominio_publico | null | null | Casa Velha | Machado de Assis | 85 | ||
do_obra_001876_023 | que ficava mais perto, entre duas portas; apoiou os braços nos joelhos, a cabeça nas mãos, e deixou-se
estar. Eu, espantado, não achava nada que dissesse, nada, cousa nenhuma; olhava para 0 ladrilho, à
toa; e assim ficamos por um longo trato de tempo. Acordou-nos um moleque, vindo pedir uma chave à | dominio_publico | null | null | Casa Velha | Machado de Assis | 75 | ||
do_obra_001876_024 | com outro, a de mandar o filho à Europa.. . As mãos tremiam-lhe um pouco; e, talvez por tê-lo sentido,
puxou-as e cruzou os braços.
— Bem, disse-lhe eu, agora é separá-los.
— Custa-me muito, porque eu gosto dela. Eduquei-a como filha.
— E urgente separá-los.
— Aqui é que Vossa Reverendíssima podia prestar-me um ... | dominio_publico | null | null | Casa Velha | Machado de Assis | 88 | ||
do_obra_001876_025 | que tentou fazer. A intenção era generosa; mas o que lá vai, lá vai. Agora é dar-nos remédio. Será tão
egoísta que me não ajude? Não tenho outra pessoa; o coronel é um estonteado... E depois, por mim só,
não faço nada... Ajude-me.
D. Antônia falava baixinho, com medo de que nos ouvissem; chegou a levantar-se e ir es... | dominio_publico | null | null | Casa Velha | Machado de Assis | 81 | ||
do_obra_001876_026 | que a revelação de D. Antônia podia não ser verdadeira, tão grave era a cousa e tão austera a pessoa.
Não adverti sequer na minha cumplicidade. Em verdade, eu é que proferi as palavras que ela trazia na
mente; se me tenho calado, chegaria ela a dizê-las? Pode ser que não; pode ser que lhe faltasse animo | dominio_publico | null | null | Casa Velha | Machado de Assis | 76 | ||
do_obra_001876_027 | constrangimento, e com vantagem para todos.
— Não sei, disse eu depois de alguns instantes de reflexão; não sei. . . Sua mãe?
— Mamãe está perfeitamente bem com ela; parece até que a trata com muito mais ternura.
Não lhe dizia eu? Mamãe é muito amiga dela.
— Não lhe terá dito nada?
— Creio que não. | dominio_publico | null | null | Casa Velha | Machado de Assis | 76 | ||
do_obra_001876_028 | nas minhas, disse que era desgraçada, que ninguém mais lhe queria, que tinha padecido muito naquele
dia, muito, muito... Nunca falamos do sentimento que a acabrunhava agora; mas não foi preciso
começar por nenhuma confissão.
— Não compreendo nada, dizia ela; sei só que sofro, que choro, e que me vou embora. Por
quê... | dominio_publico | null | null | Casa Velha | Machado de Assis | 111 | ||
do_obra_001876_029 | respondera que não; quis ir à Casa Velha, mas foi a própria sobrinha que a dissuadiu, ou antes que lhe
impôs que não fosse.
— Não houve nada, foi a sua última palavra. O que há é que é tempo de viver em nossa casa,
e não na casa dos outros. Estou moça. preciso de cuidar da minha vida.
D.. Mafalda não achava própria... | dominio_publico | null | null | Casa Velha | Machado de Assis | 118 | ||
do_obra_001876_030 | conferência particular. Desconfiada, respondeu que sim, e foi na sala dos livros, enquanto Félix estava
fora, que lhe contei o que acabava de saber.
D. Antônia escutou-me a princípio curiosa, depois ansiosa, e afinal atordoada e prostrada.
Não compreendi esse efeito; acabei, disse-lhe que a Providência se encarregar... | dominio_publico | null | null | Casa Velha | Machado de Assis | 85 | ||
do_obra_001876_031 | da verdade, contando-lhe os últimos incidentes, e a face nova da situação. Félix ouviu-me alvoroçado;
não queria crer, inquiria uma e muitas vezes se a verdade era realmente esta ou outra, se a tia da moça
não se enganara, se a nota achada. . . Mas eu interrompi-o confirmando tudo.
— E mamãe?
— Sua mãe?
— Naturalm... | dominio_publico | null | null | Casa Velha | Machado de Assis | 84 | ||
do_obra_001932_000 | gente retórica; em verdade, ele não pensou em cemitério nem sol, segundo me disse depois.
Eu, de envolta com o prazer que me trouxe aquela vista, senti-me indignado do destino do
pássaro, e murmurei baixinho palavras de azedume.
— Quem seria o dono execrável deste bichinho, que teve ânimo de se desfazer dele por | dominio_publico | null | null | Idéias do Canário | Machado de Assis | 79 | ||
do_obra_001932_001 | esperava que eu lhe falasse. Perguntei-lhe então se tinha saudades do espaço azul e infinito.
. .
— Mas, caro homem, trilou o canário, que quer dizer espaço azul e infinito?
— Mas, perdão, que pensas deste mundo? Que cousa é o mundo?
— O mundo, redargüiu o canário com certo ar de professor, o mundo é uma loja de | dominio_publico | null | null | Idéias do Canário | Machado de Assis | 79 | ||
do_obra_001959_000 | do caminho. O espírito areja-se, os próprios músculos recebem uma comunicação
agradável, o sangue não salta, fica-se em paz com Deus e os homens.
— Não serão os nossos filhos que verão todo este país cortado de estradas, disse ele.
— Não, decerto. O senhor tem filhos?
— Nenhum.
— Nem eu. Não será ainda em ... | dominio_publico | Biologia | null | Evolução | Machado de Assis | 92 | ||
do_obra_001959_001 | animada. Notei que a conversa dele fazia mais efeito no meio da viagem— arejando o
espírito e deixando a gente em paz com Deus e os homens; mas devo dizer que o
almoço pode ter prejudicado o resto. Realmente era magnífico; e seria impertinência
histórica pôr a mesa de Luculo na casa de Platão. Entre o café e o cogna... | dominio_publico | Biologia | null | Evolução | Machado de Assis | 84 | ||
do_obra_001959_002 | apoiando o cotovelo na borda da mesa, e olhando para o charuto que ardia:
— Na minha viagem agora, achei ocasião de ver como o senhor tem razão com aquela
idéia do Brasil engatinhando.
— Ah!
— Sim, senhor; é justamente o que o senhor dizia na diligência de Vassouras. Só
começaremos a andar quando tivermos mu... | dominio_publico | Biologia | null | Evolução | Machado de Assis | 91 | ||
do_obra_001959_003 | jardim, que era esplêndido, tanto ajudava a arte à natureza, e tanto a natureza coroava a
arte. Em rosas, por exemplo, (não há negar, disse-me ele, que é a rainha das flores) em
rosas, tinha-as de toda casta e de todas as regiões.
Saí encantado. Encontramo-nos algumas vezes, na rua, no teatro, em casa de amigos | dominio_publico | Biologia | null | Evolução | Machado de Assis | 79 | ||
do_obra_001959_004 | com o Benedito.
— Que é isto? exclamei.
— Perdi a eleição, disse ele, e vim passear à Europa.
Não me deixou mais; viajamos juntos o resto do tempo. Confessou-me que a perda da
eleição não lhe tirara a idéia de entrar no parlamento. Ao contrário, incitara-o mais.
Falou-me de um grande plano.
— Quero vê-lo... | dominio_publico | Biologia | null | Evolução | Machado de Assis | 85 | ||
do_obra_001882_000 | convicção.
- Não creio; aquilo é alguma caçoada que nos quer fazer. Que novidades há?
- Nada; isto é, tu é que deves saber alguma coisa.
- Eu, nada...
- Ora essa! não foste ontem ao Jardim?
- Fui, sim; houve uma ceia...
- De família, sim. Eu fui ao Alcazar. A que horas acabou a reunião?
- Às quatro da manhã... | dominio_publico | null | null | O Segredo de Augusta | Machado de Assis | 79 |
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