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|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
do_obra_001882_001 | Augusta e Adelaide.
- Quem é vivo sempre aparece, disse Vasconcelos ao avistar o rapaz.
- Não me procuram...., disse ele.
- Perdão; eu já lá fui duas vezes, e disseram-me que havias saído.
- Só por grande fatalidade, porque eu quase nunca saio.
- Mas então estás completamente ermitão?
- Estou crisálida; vou reap... | dominio_publico | null | null | O Segredo de Augusta | Machado de Assis | 103 | ||
do_obra_001882_002 | A estas palavras de Vasconcelos, acrescentou Batista:
- Sim, deves dar-nos uma explicação, e se nós que somos o teu conselho de
família, acharmos que a explicação é boa, aprovamo-la; senão, ficas sem
asas, e ficas sendo o que sempre foste...
- Apoiado, disse Vasconcelos.
- Pois é simples; estou criando asas de anj... | dominio_publico | null | null | O Segredo de Augusta | Machado de Assis | 119 | ||
do_obra_001882_003 | rapaz que era o mais doudo e ruidoso nos festins de Baco e de Citera.
- Assim, pois, deixas-nos? perguntou Vasconcelos.
- Eu? Sim e não; encontrar-me-ão nas salas; nos hotéis e nas casas
equívocas, nunca mais.
- De profundis... cantarolou Batista.
- Mas, afinal de contas, disse Vasconcelos, onde está a tua Marion?... | dominio_publico | null | null | O Segredo de Augusta | Machado de Assis | 82 | ||
do_obra_001882_004 | Gomes ia falar, mas Vasconcelos continuou sorrindo:
- Mas a sociedade?
- Que sociedade?
- A sociedade que nos tem em conta de libertinos, a ti e a mim, é natural que
não aprove o meu ato.
- Já vejo que é uma recusa, disse Gomes entristecendo.
- Qual recusa, pateta! É uma objeção, que tu poderás destruir dizendo: ... | dominio_publico | null | null | O Segredo de Augusta | Machado de Assis | 80 | ||
do_obra_001882_005 | respondeu:
- Qual, papai! Eu não quero casar...
- Não queres casar? É boa! por quê?
- Porque não tenho vontade, e vivo bem aqui.
- Mas tu podes casar e continuar a viver aqui...
- Bem; mas não tenho vontade.
- Anda lá... Amas alguém, confessa.
- Não me pergunte isso, papai... eu não amo ninguém. | dominio_publico | null | null | O Segredo de Augusta | Machado de Assis | 76 | ||
do_obra_001882_006 | Adelaide sentou-se ao pé dele, e disse:
- Portanto, meu paizinho, não falemos mais nisso...
- Falemos, minha filha; tu és criança, não sabes calcular. Imagina que eu e a
tua mãe morremos amanhã. Quem te há de amparar? Só um marido.
- Mas se eu não gosto de ninguém...
- Por ora; mas hás de vir a gostar se o noivo f... | dominio_publico | null | null | O Segredo de Augusta | Machado de Assis | 104 | ||
do_obra_001882_007 | Lourenço a cena com o pai.
- Então, é por isso que estás chorando, pequena?
- Pois então? Como fugir do casamento?
- Descansa, não te casarás; eu te prometo que não te hás de casar...
A moça sentiu um estremecimento de alegria.
- Promete, meu tio, que há de convencer a papai?
- Hei de vencê-lo ou convencê-lo, não... | dominio_publico | null | null | O Segredo de Augusta | Machado de Assis | 93 | ||
do_obra_001882_008 | aquilo uma pergunta, Augusta apressou-se a responder:
- Não se admire disto; creio que o seu dever é reconstruir a fortuna.
- Não me admira esse dever; admira-me que mo lembres por esse modo. Dir-
se-ia que a culpa é minha...
- Bom! disse Augusta, vais dizer que fui eu...
- A culpa, se culpa há, é de nós ambos.
- ... | dominio_publico | null | null | O Segredo de Augusta | Machado de Assis | 104 | ||
do_obra_001882_009 | casar com ele.
- Não casará.
- Não só por isso, mas até porque...
- Acaba.
- Até porque este casamento é uma especulação do Gomes.
- Uma especulação? perguntou Vasconcelos.
- Igual à tua, disse Lourenço. Tu dás-lhe a filha com os olhos na fortuna
dele; ele aceita-a com os olhos na tua fortuna...
- Mas ele possu... | dominio_publico | null | null | O Segredo de Augusta | Machado de Assis | 99 | ||
do_obra_001882_010 | possa compreender bem...
- É a minha opinião.
- Amas minha filha?
- Quantas vezes queres que to diga?
- O teu amor está acima de todas as circunstâncias?...
- De todas, salvo aquelas que entenderem com a felicidade dela.
- Devemos ser francos; além de amigo que sempre foste, és agora quase meu
filho... A discriç... | dominio_publico | null | null | O Segredo de Augusta | Machado de Assis | 113 | ||
do_obra_016951_000 | naquela data; não menos o marido. Talvez ele fosse ainda mais feliz que ela, mas
não saberia mostrá -lo tanto. D. Carmo possui o d om de falar e viver por todas as
feições, e um poder de atrair as pessoas, como terei visto em poucas mulheres, ou
raras. Os seus cabelos brancos, colhidos com arte e gosto dão à velhice um... | dominio_publico | null | null | Memorial de Aires | Machado de Assis | 81 | ||
do_obra_016951_001 | vez tomou parte ativa na luta; mas não houve luta que valesse. Tristão queria à fina
força embarcar para Lisboa.
— Papai volta daqui a seis meses; eu volto com ele. Que são seis meses?
— Mas os estudos? dizia-lhe Aguiar. Você vai perder um ano. . .
— Pois que se perca um ano. Que é um ano que não valha a pena sacrificá... | dominio_publico | null | null | Memorial de Aires | Machado de Assis | 81 | ||
do_obra_016951_002 | tempo de ver tudo, o velho e o novo, terras, mares, costumes... Estudasse primeiro.
Tristão não quis. A viagem se fez, a despeito das lágrimas que custou.
Não ponho aqui tais lágrimas, nem as promessas feitas, as lembranças
dadas, os retratos trocados entre o afilhado e os padrinhos. Tudo se afirmou de | dominio_publico | null | null | Memorial de Aires | Machado de Assis | 75 | ||
do_obra_016951_003 | presente, disse que nada ocorre na praça nem lhe chegou ao Banco do Sul.
27 de março
Santa-Pia chegou da fazenda, e não foi para a casa do irmão; foi para o Hotel
da América. É claro que não quer ver a filha. Não há nada mais tenaz que um bom
ódio. Parece que ele veio por causa do boato que corre na Paraíba do Sul acer... | dominio_publico | null | null | Memorial de Aires | Machado de Assis | 81 | ||
do_obra_016951_004 | conhece a língua do próprio louvor, mas eu já sabia, e percebia -se do carinho da
narração que devia ser assim mesmo. Rita arriscou esta reflexão rindo:
— As crianças não sabem o cuidado que dão, e esquecem depressa o que
sabem.
— É preciso desculpar a Tristão o que é próprio de rapaz, acudiu D Carmo.
Ele não é mau; es... | dominio_publico | null | null | Memorial de Aires | Machado de Assis | 147 | ||
do_obra_016951_005 | encomendou o cuidado a um terceiro. Vi magistrados, advogados, pessoas do
comércio e do funcionalismo, senhoras, algumas senhoras. Destas eram moças
umas, amigas de Fidélia, outras eram velhas do tempo da mãe. Uma destas era a
que não faltaria, ainda que lá não fosse ninguém, e só amiga da viúva, a boa Aguiar, | dominio_publico | null | null | Memorial de Aires | Machado de Assis | 77 | ||
do_obra_016951_006 | cidade.
E lá foi, e lá andou, e lá descobriu o padre, dentro de uma casinha—baixa.
Bessa, que fora comensal dos pais dele, não o conheceu logo, mas às primeiras
notícias recompôs o passado e adivinhou o menino a quem dera batismo. Aguiar
fê-lo convidar e vir à casa dele, a ver o moço e visitá -lo, sempre que quisesse. ... | dominio_publico | null | null | Memorial de Aires | Machado de Assis | 80 | ||
do_obra_016951_007 | pedido vai ficar mais dois. Mas eu ainda verei se posso retê-lo oito ou dez.
— Veio só para visitá-los?
— Diz que só. Talvez o pai aproveitasse a vinda para encarregá -lo de algum
negócio; apesar de liquidado, ainda tem interesses aqui; não lhe perguntei por isso.
— Pois veja se o faz ficar mais tempo; ele acabará fica... | dominio_publico | null | null | Memorial de Aires | Machado de Assis | 85 | ||
do_obra_016951_008 | leite até aos capotinhos de lã, e o resto; ainda que me sobrasse tempo, não acharia
crédito em seus ouvidos. Não é que fosse extravagante nem excessivo; era natural,
mas tão igual sempre, tão verdadeiro e cuidadoso que era como se o bicho fosse
gente. O bicho viveu os seus dez ou onze anos da raça; a doença achou enfer... | dominio_publico | null | null | Memorial de Aires | Machado de Assis | 81 | ||
do_obra_016951_009 | encomendaram da Secretaria de Estrangeiros, — felizmente acabado.
24 de agosto
Qual! não posso interromper o Memorial; aqui me tenho outra vez com a pena
na mão. Em verdade, dá certo gosto deitar ao papel coisas que querem sair da
cabeça, por via da memória ou da reflexão. Venhamos novamente à notação dos
dias. | dominio_publico | null | null | Memorial de Aires | Machado de Assis | 78 | ||
do_obra_016951_010 | dizia com os olhos e um riso bom que lhe fazia luzir a pontinha dos dentes toda a
glória daquele filho que o não era, aquele filho morto e redivivo, e o rapaz era
atenção e gosto também. Quanto ao velho não ostentava menos a sua delícia.
Fidélia é que não publicava nada; sorria, é certo, mas pouco e cabisbaixa. E lá fo... | dominio_publico | null | null | Memorial de Aires | Machado de Assis | 80 | ||
do_obra_016951_011 | aprendido, tocaria agora ou comporia, quem sabe? Não me quis dar a ela, por causa
do ofício diplomático, e foi um erro. A diplomacia que exerci em minha vida era antes
função decorativa que outra coisa; não fiz tratados de comércio nem c de limites,
não celebrei alianças de guerra; podia acomodar -me às melodias de sal... | dominio_publico | null | null | Memorial de Aires | Machado de Assis | 81 | ||
do_obra_016951_012 | O resto é a noticia de ter chegado Osório, o advogado do Banco do Sul, que
foi há tempos ao Recife, onde o pai estava doente e morreu.
— Voltou triste, e o luto ainda o faz mais triste, disse Aguiar.
— Será só a morte do pai? perguntei.
— Que mais pode ser?
— Não me disseram, ou eu adivinhei que ele andava meio apaixon... | dominio_publico | null | null | Memorial de Aires | Machado de Assis | 103 | ||
do_obra_016951_013 | Dormi pouco, uns vinte minutos, apenas o bastante para sonhar que todas as
crianças deste mundo, com carga ou sem ela, faziam um grande circulo em volta de
mim, e dançavam uma dança tão alegre que quase estourei de riso. Todas falavam
“deste moço que ria tanto“. Acordei com. fome, lavei -me, vesti -me e vim primeiro | dominio_publico | null | null | Memorial de Aires | Machado de Assis | 79 | ||
do_obra_016951_014 | ontem ajustaram entre si lá ir hoje, e avisaram disso o desembargador. Foi o que
Fidélia nos contou ontem mesmo, aqui em casa.
E D. Carmo continuou o que ia dizendo antes:
— Alguns levarão as filhas, e é natural a um rapaz o desejo de ver moças.
Tristão acha que as suas patrícias são muito graciosas; mais de uma vez o ... | dominio_publico | null | null | Memorial de Aires | Machado de Assis | 113 | ||
do_obra_016951_015 | bela Fidélia. Era uma consolação grande. Não obstante, a consolação só cabe ao
que dói, e a dor da perda de um já não seria menor que o prazer da conservação da
outra. Logo vi essas duas expressões no rosto da boa senhora, combinadas em uma
só e única, espécie de meio -luto. Aguiar também sentiria como a mulher, mas o
... | dominio_publico | null | null | Memorial de Aires | Machado de Assis | 99 | ||
do_obra_016951_016 | diversos um de outro; em todo caso diminuiria a verdade exata, que aqui me parece
mais útil que na obra de imaginação.
Já lá vão muitas páginas falei das simetrias que há na vida, citando os casos
de Osório e de Fidélia, ambos com os pais doentes fora daqui, e daqui saindo para
eles, cada um por sua parte. Tudo isso re... | dominio_publico | null | null | Memorial de Aires | Machado de Assis | 89 | ||
do_obra_016951_017 | verdadeira causa da viagem, e disse-lho ao jantar. Ela ficou séria e abanou a
cabeça. Se me tem jurado que não, é provável que me enterrasse o espinho da
dúvida, mas falou com simplicidade, e nomeou as visitas que fez. Uma delas foi a D.
Carmo.
— Carmo está sã como um pero, disse-me; recebeu-me rindo como só ela | dominio_publico | null | null | Memorial de Aires | Machado de Assis | 78 | ||
do_obra_016951_018 | Talvez a idéia que o levou à mala fosse a esperança de algum valor extraviado, uma
jóia, por exemplo, ou ainda menos, uma camisa, um colete, um lenço, e sendo assim
o silêncio era mui possível. Achou papéis velhos, veio fielmente entregar-mos .
Não lhe quero mal por isso. Não lho quis no dia em que descobri que ele me | dominio_publico | null | null | Memorial de Aires | Machado de Assis | 79 | ||
do_obra_016951_019 | Ao levantar da cama, a primeira idéia que me acudiu foi aquela que escrevi
ontem, à meia -noite: “Esta moça (Fidélia) foge a alguma coisa, se não foge a si
mesma“.
22 de outubro
Fidélia não voltou ao Flamengo, apesar da promessa que D. Carmo lhe fez
fazer. D. Carmo fora achá -la a pintar; Fidélia lembrara -se de haver ... | dominio_publico | null | null | Memorial de Aires | Machado de Assis | 82 | ||
do_obra_016951_020 | Mana Rita foi hoje ao cemitério levar flores aos nossos.
— Você não imagina; acordei às cinco e meia para me vestir e estar cedo em
S. João Batista. Cheguei às oito e pouco; achei muita gente, não tanta, porém, como
há de ser logo, à tarde. Não vim buscar você, porque sei que não iria.
— Pois eu fui à missa da Glória.
... | dominio_publico | null | null | Memorial de Aires | Machado de Assis | 117 | ||
do_obra_016951_021 | desembargador mandou também o seu ramo; estava escrito numa fita.
— Vocês falaram-se?
— Não; ela já tinha saído.
— Como sabe você que ela é que foi levar as flores e coroas?
— Adivinha-se pela disposição.
— Sim?
— Decerto, mano. A disposição, o arranjo, a combinação, tudo era de mulher.
Há dessas coisas que mão de... | dominio_publico | null | null | Memorial de Aires | Machado de Assis | 90 | ||
do_obra_016951_022 | deram o gosto e o costume de conversar. A diplomacia me ensinou a aturar com
paciência uma infinidade de sujeitos intoleráveis que este mundo nutre para os seus
propósitos secretos. A aposentação me restituiu a mim mesmo; mas lá vem dia em
que, não saindo de casa e cansado de ler, sou obrigado a falar, e, não podendo f... | dominio_publico | null | null | Memorial de Aires | Machado de Assis | 88 | ||
do_obra_016951_023 | de Tristão, com um acréscimo que aqui vai para ligar ao que escrevi nestes últimos
dias. Esse acréscimo é nada menos que o desejo de D. Carmo é de os ver casados.
— Digo isto só à senhora e peço -lhe que não conte a ninguém, acabou D.
Carmo, eu gostaria de os ver casados, não só porque se merecem, como pela | dominio_publico | null | null | Memorial de Aires | Machado de Assis | 77 | ||
do_obra_016951_024 | perguntei se não aparelhava já; respondeu que não, que há tempo. Agora imagino
que, se houver tempo e achar bilhete, ele pode converter a necessidade de amar a
moça no desejo de ceder aos velhos, e ficará mais duas ou três semanas. Os velhos
não serão a causa verdadeira, mas não há só filhos de empréstimo, há também | dominio_publico | null | null | Memorial de Aires | Machado de Assis | 79 | ||
do_obra_016951_025 | admirava menos a tela que a pintora, ela menos o espetáculo que o admirador, e eu
via-os com estes olhos que a terra fria há de comer.
D. Carmo dava -me a parte de atenção a que a cortesia a obrigava, mas
tão-somente essa. Olhava para os dois a miúdo, a espreitá-los, e, se fosse preciso, a
animá-los. Mas já não era pre... | dominio_publico | null | null | Memorial de Aires | Machado de Assis | 93 | ||
do_obra_016951_026 | maligno. Esta senhora se não tivesse fel talvez não prestasse; eu nunca a vejo sem
ele, e é uma delícia Ou já sabia da afeição da viúva ao Tristão, ou reparou nela esta
noite. Fosse como fosse, disse-me que Tristão não voltará tão cedo a Lisboa.
— Sim, concordei, parece que lhe custa muito deixar os padrinhos.
— Os pad... | dominio_publico | null | null | Memorial de Aires | Machado de Assis | 95 | ||
do_obra_016951_027 | de lhes mandar cedo o meu bilhete de felicitações, e pode ser que lá vá de noite.
Vou, vou.
...Rita escreveu-me agora (seis da tarde) pedindo que a espere amanhã, à
noite, para irmos juntos ao Flamengo. Vou; há seis dias que lá não piso.
25 de janeiro
Não havia muita gente no Flamengo. Os quatro, — casal Aguiar, Tristã... | dominio_publico | null | null | Memorial de Aires | Machado de Assis | 101 | ||
do_obra_016951_028 | estranha ou hóspede, não sei como diga para significar uma espécie de visita de
pêsames, poucos minutos e poucas palavras. Já lá escrevi, há três semanas, a 9 do
mês passado, alguma coisa que de certo modo explica e ata os dois estados.
6 de fevereiro
Não há como um grande segredo para ser divulgado depressa. Além de m... | dominio_publico | null | null | Memorial de Aires | Machado de Assis | 80 | ||
do_obra_016951_029 | parte do próprio Tristão, mas não me custou nada; apenas retruquei disfarçando:
— Bem, a viúva não casa comigo, casa com outro, segundo lhe parece: mas
então você confessa que perdeu a aposta.
— Não digo que não. Tudo está nas mãos de Deus.
— Lembra-se daquele dia no cemitério?
— Lembra-me; há um ano. | dominio_publico | null | null | Memorial de Aires | Machado de Assis | 75 | ||
do_obra_016951_030 | Quis defender os três, mas a certeza de que ela não tem de mim melhor
opinião, fez -me recuar, e dizer -lhe que nunca lhe achei tanto espírito Fui além;
gabei-lhe os olhos. Como então passasse os dedos pelas sobrancelhas , gabei-lhe a
mão, e iria aos pés, se me mostrasse os pés, mas não me mostrou mais nada.
21 de... | dominio_publico | null | null | Memorial de Aires | Machado de Assis | 81 | ||
do_obra_016951_031 | Lisboa, a tempo. Os de cá vão correr já.
Foi a própria D. Carmo que me deu a noticia hoje, antes que me venha por
carta, como se tratasse de pessoas minhas, noivo e noiva, tão freqüentes somos os
três e os quatro, mas logo reduziu tudo a si mesma.
— Realiza-se um grande sonho meu, conselheiro, disse ela. Tê-los-ei | dominio_publico | null | null | Memorial de Aires | Machado de Assis | 79 | ||
do_obra_016951_032 | eu estava a seu lado, e ela ao pé de seu marido; a distancia era curta, e eu não
esqueço nada.
— Justamente. Senti-me feliz, mas não contei que a felicidade viesse a ser
maior.,
Eu, para levar a conversa a outro ponto, insisti que não esqueço nada, e referi
várias anedotas de lembrança viva, todas verdadeiras, mas da ... | dominio_publico | null | null | Memorial de Aires | Machado de Assis | 83 | ||
do_obra_016951_033 | para todos, e o papel correu a mesa. Naturalmente os recém-casados apertaram as
mãos, e D. Carmo adotou o texto da verdadeira mãe com o seu olhar de mãe
postiça. Eu deixei-me ir atrás daquela ternura, não que a compartisse, mas fazia-me
bem. Já não sou deste mundo, mas não é mau afastar-se a gente da praia com os | dominio_publico | null | null | Memorial de Aires | Machado de Assis | 78 | ||
do_obra_016951_034 | aquela. No fim da carta, Fidélia insinua a idéia de irem todos quatro à Europa, ou os
três, se Aguiar não puder deixar o Banco. A velha vai dizer que não pode ser por
ora.
— Nem por ora, nem jamais, concluiu dobrando a carta; estou cansada e
fraca, conselheiro, e meia doente. Não dou para folias de viagens.
— Viagens ... | dominio_publico | null | null | Memorial de Aires | Machado de Assis | 101 | ||
do_obra_016951_035 | Era natural e cortês, sendo ele só e Aguiar casado. Assim fazem desde o dia
20, em que os dois desceram de Petrópolis; lá os vi ontem, dia de S. João.
Não escrevo o que lá se passou para me não demorar a dizer tudo, que é
muito. Vi-os felizes a todos quatro. D. Carmo parecia esconder a tristeza da viagem | dominio_publico | null | null | Memorial de Aires | Machado de Assis | 76 | ||
do_obra_016951_036 | A outra visita foi por noite de S. João; hoje, noite de S. Pedro, chegarei
também ao Flamengo, e, se couber, falaremos também das coisas antigas.
30 de junho
Lá estive na casa Aguiar. Não falamos de coisas velhas nem de coisas novas,
mas só das futuras. No fim da noite adverti que falávamos todos, menos o casal | dominio_publico | null | null | Memorial de Aires | Machado de Assis | 78 | ||
do_obra_016951_037 | desgosto.
— Olhe, mano, eu ainda creio que ela desfaz a viagem....
Era no escuro, à vinda da praia; por isso a mana não me pôde ver o gesto
incrédulo, mas certamente o adivinhou e trocou o que disse. “Não, que desfaça não
digo, mas daria muito para não ter consentido em partir.“ Repetiu-me as palavras | dominio_publico | null | null | Memorial de Aires | Machado de Assis | 75 | ||
do_obra_002145_000 | espantado.
MAGALHÃES — É um desarranjo para nós; mas, enfim, pode ser que lhe achemos
lá na Grécia algum descendente de Alcebíades
1 que a preserve do olhar espantado.
D. ADELAIDE — Ouço passos. Há de ser titia...
MAGALHÃES — Justamente! Continuemos a estudar a Grécia.
(Sentam-se outra vez, Magalhães lendo, d. ... | dominio_publico | null | null | Não Consultes Médico | Machado de Assis | 89 | ||
do_obra_002145_001 | de tolices que ela não tomava, porque eu não deixava; o médico devia ser eu.
D. ADELAIDE — Foi uma felicidade. O que é que se ganha em engolir pílulas?
D. LEOCÁDIA — Apanham-se moléstias.
D. ADELAIDE — Uma tarde, fitando eu os olhos do Magalhães...
D. LEOCÁDIA — Perdão, o nariz.
D. ADELAIDE — Vá lá. A senhora... | dominio_publico | null | null | Não Consultes Médico | Machado de Assis | 90 | ||
do_obra_002145_002 | tudo a tal ponto que me fez rir. Ele é doido?
MAGALHÃES — Não.
1 Político e militar grego do século V a. C., discípulo de Sócrates, foi famoso pela beleza e pela ambição.
D. LEOCÁDIA — A princípio, cuidei que era. Mas o melhor foi quando se serviu o
peru. Perguntei-lhe que tal achava o peru. Ficou pálido, deix... | dominio_publico | null | null | Não Consultes Médico | Machado de Assis | 110 | ||
do_obra_002145_003 | com voz surda: “d. Leocádia, eu não conheço o Peru...” Eu, espantada, perguntei: “Pois não
está comendo?” “Não falo desta pobre ave; falo da república.”
MAGALHÃES — Pois conhece a república.
D. LEOCÁDIA — Então mentiu.
MAGALHÃES — Não, porque nunca lá foi.
D. LEOCÁDIA ( a d. Adelaide ) — Mau! seu marido parece... | dominio_publico | null | null | Não Consultes Médico | Machado de Assis | 84 | ||
do_obra_002145_004 | virando o juízo. ( a Magalhães ) Conhece então o Peru, como vocês estão conhecendo a
Grécia... pelos livros.
MAGALHÃES — Também não.
D. LEOCÁDIA — Pelos homens?
MAGALHÃES — Não, senhora.
D. LEOCÁDIA — Então pelas mulheres?
MAGALHÃES — Nem pelas mulheres.
D. LEOCÁDIA — Por uma mulher?
MAGALHÃES — Por uma ... | dominio_publico | null | null | Não Consultes Médico | Machado de Assis | 92 | ||
do_obra_002145_005 | amores; achei-lhe um riso amargo... Terá bom coração?
MAGALHÃES — Coração de ouro.
D. LEOCÁDIA — Espírito elevado?
MAGALHÃES — Sim, senhora.
D. LEOCÁDIA — Espírito elevado, coração de ouro, saudades... Está entendido.
MAGALHÃES — Entendido o quê?
D. LEOCÁDIA — Vou curar o seu amigo Cavalcante. De que é que ... | dominio_publico | null | null | Não Consultes Médico | Machado de Assis | 82 | ||
do_obra_002145_006 | curar a maluquice do Cavalcante? Vou curá-lo. Ele virá hoje?
D. ADELAIDE — Não vem todos os dias; às vezes passa-se uma semana.
MAGALHÃES — Mora perto daqui; vou escrever-lhe que venha, e, quando chegar,
dir-lhe-ei que a senhora é o maior médico do século; cura o moral... Mas, minha tia, devo
avisá-la de uma cois... | dominio_publico | null | null | Não Consultes Médico | Machado de Assis | 146 | ||
do_obra_002145_007 | todas as enfermidades morais.
CAVALCANTE — Oh! eu sou incurável!
MAGALHÃES — Por isso mesmo deves sujeitar-te aos seus remédios. Se te não
curar, dar-te-á alguma distração, e é o que eu quero. ( Abre a charuteira, que está vazia )
Olha, espera aqui, lê algum livro; eu vou buscar charutos.
( Sai; Cavalcante pega... | dominio_publico | null | null | Não Consultes Médico | Machado de Assis | 115 | ||
do_obra_002145_008 | fala trocado.
CAVALCANTE — Disse-lhe ontem algumas tolices, não?
D. LEOCÁDIA — Tolices, é muito; umas palavras sem sentido.
CAVALCANTE — Sem sentido, insensatas, vem a dar na mesma.
D. LEOCÁDIA, pegando-lhe as mãos — Olhe bem para mim. ( Pausa) Suspire.
(Cavalcante suspira ). O senhor está doente; não negue qu... | dominio_publico | null | null | Não Consultes Médico | Machado de Assis | 87 | ||
do_obra_002145_009 | grandisíssimo desgosto...
D. LEOCÁDIA — Jogo de praça?
CAVALCANTE — Não, senhora.
D. LEOCÁDIA — Ambições políticas malogradas.
CAVALCANTE — Não conheço política.
D. LEOCÁDIA — Algum livro mal recebido pela imprensa?
CAVALCANTE — Só escrevo cartas particulares.
D. LEOCÁDIA — Não atino. Diga francamente; eu... | dominio_publico | null | null | Não Consultes Médico | Machado de Assis | 86 | ||
do_obra_002145_010 | bonita?
CAVALCANTE — Como um anjo!
D. LEOCÁDIA — O coração também era de anjo?
CAVALCANTE — Pode ser, mas de anjo mau.
D. LEOCÁDIA — Uma ingrata...
CAVALCANTE — Uma perversa!
D. LEOCÁDIA — Diabólica...
CAVALCANTE — Sem entranhas!
D. LEOCÁDIA — Vê que estou adivinhando. Console-se; uma criatura dessas nã... | dominio_publico | null | null | Não Consultes Médico | Machado de Assis | 80 | ||
do_obra_002145_011 | procurou esquecer o mal nas folias próprias de rapazes?
CAVALCANTE — Oh! não! Meu único prazer é pensar nela.
D. LEOCÁDIA — Desgraçado! Assim nunca há de sarar.
CAVALCANTE — Vou tratar de esquecê-la.
D. LEOCÁDIA — De que modo?
CAVALCANTE — De um modo velho, alguns dizem que já obsoleto e arcaico. | dominio_publico | null | null | Não Consultes Médico | Machado de Assis | 76 | ||
do_obra_002145_012 | curado.
CAVALCANTE — Vou.
D. LEOCÁDIA — Muito bem. A sua doença é tal que só com remédios fortes. Vá;
10 anos passam depressa.
CAVALCANTE — Obrigado, minha senhora.
D. LEOCÁDIA — Até logo.
CAVALCANTE — Não, minha senhora, vou já.
D. LEOCÁDIA — Já para a China!
CAVALCANTE — Vou arranjar as malas, e amanhã... | dominio_publico | null | null | Não Consultes Médico | Machado de Assis | 146 | ||
do_obra_002145_013 | preciso obedecer religiosamente ao médico.
D. LEOCÁDIA — Como eu gosto de ver um doente assim! O senhor tem fé no
médico. O pior é que daqui a pouco, talvez não se lembre dele.
CAVALCANTE — Oh! não! Hei de lembrar-me sempre, sempre!
D. LEOCÁDIA — No fim de dois anos escreva-me; informe-me sobre o seu estado, | dominio_publico | null | null | Não Consultes Médico | Machado de Assis | 79 | ||
do_obra_002145_014 | Cena VIII
D. Leocádia, d. Adelaide
D. LEOCÁDIA — Com dois anos de China está curado. ( Vendo entrar Adelaide. )
O dr. Cavalcante saiu agora mesmo. Ouviste o meu exame médico?
D. ADELAIDE — Não. Que lhe pareceu?
D. LEOCÁDIA — Cura-se.
D. ADELAIDE — De que modo?
D. LEOCÁDIA — Não posso dizer; é segredo profiss... | dominio_publico | null | null | Não Consultes Médico | Machado de Assis | 129 | ||
do_obra_016957_000 | enfim a causa do fenômeno e o remédio universal. Este é o mistério do meu
coração. Creio que com isto presto um bom serviço à humanidade.
—Um excelente serviço, corrigiu o boticário.
—Sem este asilo, continuou o alienista, pouco poderia fazer; ele dá -me,
porém, muito maior campo aos meus estudos.
—Muito maior, acresce... | dominio_publico | null | null | O Alienista | Machado de Assis | 83 | ||
do_obra_016957_001 | dizer que se considerava tão viúva como dantes. E acrescentou:
—Quem diria nunca que meia dúzia de lunáticos...
Não acabou a frase; ou antes, acabou -a levantando os olhos ao teto,—os
olhos, que eram a sua feição mais insinuante,— negros, grandes, lavados de uma
luz úmida, como os da aurora. Quanto ao gesto, era o mesm... | dominio_publico | null | null | O Alienista | Machado de Assis | 85 | ||
do_obra_016957_002 | Enquanto ela comia o ouro com os seus olhos negros, o alienista fitava -a, e
dizia-lhe ao ouvido com a mais pérfida das alusões:
—Quem diria que meia dúzia de lunáticos...
D. Evarista compreendeu, sorriu e respondeu com muita resignação:
—Deus sabe o que faz!
Três meses depois efetuava -se a jornada. D. Evarista, a tia... | dominio_publico | null | null | O Alienista | Machado de Assis | 103 | ||
do_obra_016957_003 | E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse -lhe que
sim, que era melhor começar pela execução.
—Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele.
Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:
—Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver | dominio_publico | null | null | O Alienista | Machado de Assis | 75 | ||
do_obra_016957_004 | Bacamarte espetara na pobre senhora um par de olhos agudos como
punhais. Quando ela acabou, estendeu-lhe a mão polidamente, como se o fizesse à
própria esposa do vice -rei, e convidou-a a ir falar ao primo. A mísera acreditou; ele
levou-a à Casa Verde e encerrou-a na galeria dos alucinados.
A notícia desta aleivosia do... | dominio_publico | null | null | O Alienista | Machado de Assis | 91 | ||
do_obra_016957_005 | para o assunto da ocasião, a senhora vem achá-la muito cheia de gente.
—Sim?
—É verdade. Lá está o Mateus...
—O albardeiro?
—O albardeiro; está o Costa, a prima do Costa, e Fulano, e Sicrano, e...
—Tudo isso doido?
—Ou quase doido, obtemperou padre.
—Mas então?
O vigário derreou os cantos da boca, à maneira de quem não... | dominio_publico | null | null | O Alienista | Machado de Assis | 104 | ||
do_obra_016957_006 | inteira. A digna matrona não pôde conter a indignação e a vergonha. Nas explosões
da cólera escaparam-lhe expressões soltas e vagas, como estas:
—Tratante!... velhaco!... ingrato!... Um patife que tem feito casas à custa de
ungüentos falsificados e podres... Ah! tratante!...
Simão Bacamarte advertiu que, ainda quando n... | dominio_publico | null | null | O Alienista | Machado de Assis | 104 | ||
do_obra_001902_000 | dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero.
Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo.
Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto
magnífico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a idéia, | dominio_publico | História | null | Histórias sem Data | Machado de Assis | 77 | ||
do_obra_001902_001 | mestres. Verdade é que neste caso seria o aplauso de um mestre vencido, e uma tal
exigência... Senhor, desço à terra; vou lançar a minha pedra fundamental.
— Vai.
— Quereis que venha anunciar-vos o remate da obra?
— Não é preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cansado há tanto da | dominio_publico | História | null | Histórias sem Data | Machado de Assis | 76 | ||
do_obra_001902_002 | hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente.
E descia, e subia, examinava tudo, retificava tudo. Está claro que combateu o
perdão das injúrias e outras máximas de brandura e cordialidade. Não proibiu formalmente
a calúnia gratuita, mas induziu a exercê-la mediante retribuição, ou pecuniária, ou de outra
espécie; ... | dominio_publico | História | null | Histórias sem Data | Machado de Assis | 99 | ||
do_obra_001902_003 | fazer ao Rio de Janeiro, naquele ano de 1768, governando o conde de Azambuja, que a
princípio se disse o mandara buscar; esta versão durou pouco. Veio, ficou e morreu com o
século. Posso afirmar que era médico e holandês. Viajara muito, sabia toda a química do
tempo, e mais alguma; falava correntemente cinco ou seis... | dominio_publico | História | null | Histórias sem Data | Machado de Assis | 110 | ||
do_obra_001902_004 | pegando uma das varas do pálio.
— Que tem isso? interrompeu o médico; ninguém lhes diz que está doente dos
braços, nem das pernas...
— Do coração? do estômago?
— Nem coração, nem estômago, respondeu o Dr. Jeremias. E continuou, com muita
doçura, que se tratava de negócios altamente especulativos, que não ... | dominio_publico | História | null | Histórias sem Data | Machado de Assis | 86 | ||
do_obra_001902_005 | constante.
No dia seguinte o Dr. Jeremias recebeu os três credores, entre sete e oito horas da
manhã. “Entrem, entrem...“ E com o seu largo carão holandês, e o riso derramado pela boca
fora, como um vinho generoso de pipa que se rompeu, o grande médico veio em pessoa
abrir-lhes a porta. Estudava nesse momento um... | dominio_publico | História | null | Histórias sem Data | Machado de Assis | 89 | ||
do_obra_001902_006 | longanimidade dos credores, censurando-os ao mesmo tempo pela acumulação.
— Agora, dizia-lhes, não quero contas de mais de oito dias.
— Nós é que lhe marcaremos o tempo, respondiam generosamente os credores.
Restava, entretanto, um credor. Esse era o mais recente, o próprio Dr. Jeremias, | dominio_publico | História | null | Histórias sem Data | Machado de Assis | 75 | ||
do_obra_001902_007 | no papel a sensação de felicidade extinta.
— Pai José, disse ele ao entrar, sinto-me hoje adoentado.
— Sinhô comeu alguma coisa que fez mal...
— Não; já de manhã não estava bom. Vai à botica...
O boticário mandou alguma coisa, que ele tomou à noite; no dia seguinte mestre
Romão não se sentia melhor. É ... | dominio_publico | História | null | Histórias sem Data | Machado de Assis | 117 | ||
do_obra_001902_008 | ombros, e duas mãos presas. Mestre Romão sorriu com tristeza.
— Aqueles chegam, disse ele, eu saio. Comporei ao menos este canto que eles
poderão tocar...
Sentou-se ao cravo; reproduziu as notas e chegou ao lá....
— Lá, lá, lá...
Nada, não passava adiante. E contudo, ele sabia música como gente.
— ... | dominio_publico | História | null | Histórias sem Data | Machado de Assis | 113 | ||
do_obra_001902_009 | recordação de outro tempo, e não há de ser de muito tempo, a julgar pelo corpo: é moça de
truz.
— Deve ter quarenta e seis anos.
— Ah! conservada. Vamos lá; deixe de olhar para o chão, e conte-me tudo. Está
viúva, naturalmente?
— Não.
— Bem; o marido ainda vive. É velho?
— Não é casada.
— Solt... | dominio_publico | História | null | Histórias sem Data | Machado de Assis | 101 | ||
do_obra_001902_010 | vestido afogado, escorrido, sem espavento, arrastava a muitos, ainda assim.
— Por exemplo, ao senhor.
— Não, mas ao Andrade, um amigo meu, de vinte e seis anos, meio advogado, meio
político, nascido nas Alagoas, e casado na Bahia, donde viera em 1859. Era bonita a mulher
dele, afetuosa, meiga e resignada; qua... | dominio_publico | História | null | Histórias sem Data | Machado de Assis | 119 | ||
do_obra_001902_011 | Ele mastigou um pouco, e confessou que sim.
— Olhe; lá vem ela saindo: não é ela?
— Ela mesma; afastemo-nos da esquina.
— Realmente, deve ter sido muito bonita. Tem um ar de duquesa.
— Não olhou para cá; não olha nunca para os lados. Vai subir pela rua do Ouvidor...
— Sim, senhor. Compreendo o Andra... | dominio_publico | História | null | Histórias sem Data | Machado de Assis | 101 | ||
do_obra_001902_012 | nenhuma; as boticas nenhum veneno. A polícia pôs em campo todos os seus recursos, e
nada. Não lhe digo o estado de aflição em que o pobre Andrade viveu durante essas longas
horas, porque todo o dia se passou em pesquisas inúteis. Não era só a dor de a perder; era
também o remorso, a dúvida, ao menos, da consciência,... | dominio_publico | História | null | Histórias sem Data | Machado de Assis | 86 | ||
do_obra_001902_013 | ainda estou na minha; acho que foi a nostalgia da lama.
— Não: nunca a Marocas descera até aos Leandros.
— Então por que desceria naquela noite?
— Era um homem que ela supunha separado, por um abismo, de todas as suas
relações pessoais; daí a confiança. Mas o acaso, que é um deus e um diabo ao mesmo
tempo... | dominio_publico | História | null | Histórias sem Data | Machado de Assis | 84 | ||
do_obra_001902_014 | quando saiu, embrulhando os seus sessenta anos numa capa grossa, — estávamos em junho
de 1879 — metendo a calva na carapuça, acendendo um charuto, e entrando lepidamente no
carro.
No carro é possível que cochilasse; mas, em casa, mau grado a hora e o grande peso
das pálpebras, ainda foi à secretária, abriu uma g... | dominio_publico | História | null | Histórias sem Data | Machado de Assis | 88 | ||
do_obra_001902_015 | recordavam a última festa, a do outro domingo, tão íntima, tão expansiva! E, mais perto
ainda, a noite da antevéspera, em que o voltarete do costume foi até às onze horas.
— Amanhã não venham, disse-lhes o Joaquim Fidélis; vou ao baile do Carvalhinho.
— E depois?...
— Depois de amanhã, cá estou.
E, à s... | dominio_publico | História | null | Histórias sem Data | Machado de Assis | 99 | ||
do_obra_001902_016 | o almoço, Conrado começou a enrolar um cigarro, e Mariana anunciou sorrindo que ia
pedir-lhe uma coisa.
— Que é, meu anjo?
— Você é capaz de fazer-me um sacrifício?
— Dez, vinte...
— Pois então não vá mais à cidade com aquele chapéu.
— Por quê? é feio?
— Não digo que seja feio; mas é cá para fo... | dominio_publico | História | null | Histórias sem Data | Machado de Assis | 143 | ||
do_obra_001902_017 | consigo mesma. Planeou a vida de toda aquela semana, marcando os dias e horas de cada
coisa, como numa viagem oficial. Levantava-se, sentava-se, ia à janela, à espera da amiga.
— Sofia parece que morreu, dizia de quando em quando.
De uma das vezes que foi à janela, viu passar um rapaz a cavalo. Não era inglês, | dominio_publico | História | null | Histórias sem Data | Machado de Assis | 80 | ||
do_obra_001902_018 | perguntava ela à amiga. Sofia só à segunda vez lhe respondeu que tinham passado a casa;
mas já agora iriam até ao fim da rua; voltariam depois. Voltaram finalmente.
— Uf! respirou Mariana entrando no corredor.
— Que é, meu Deus? Ora você! Parece da roça...
A sala do dentista tinha já algumas freguesas. Mar... | dominio_publico | História | null | Histórias sem Data | Machado de Assis | 88 | ||
do_obra_001902_019 | o chapéu era bonito, trazia uma linda gravata, e possuía um ar entre elegante e pelintra,
mas...
— Não juro, ouviu? replicava a outra, mas é o que se diz.
Mariana fitou pensativa o chapéu denunciado. Havia agora mais três, de igual porte
e graça, e provavelmente os quatro falavam delas, e falavam bem. Mariana... | dominio_publico | História | null | Histórias sem Data | Machado de Assis | 105 | ||
do_obra_001902_020 | Sofia declarou que sairia também. Já agora não esperava mais. A verdade é que a idéia de ir
à câmara dos deputados começara a faiscar-lhe na cabeça.
— Vamos à câmara? propôs ela à outra.
— Não, não, disse Mariana; não posso, estou muito cansada.
— Vamos, um bocadinho só; eu também estou muito cansada...
... | dominio_publico | História | null | Histórias sem Data | Machado de Assis | 99 | ||
do_obra_001902_021 | legislativo ia respondendo à amiga, com brandura, que a culpa era dela, e que a sua
intenção era boa, era restituir-lhe a posse de si mesma.
— Mas, se você acha que a aborreço não venha mais comigo, concluiu Sofia.
E, inclinando-se um pouco:
— Olhe o ministro da justiça.
Mariana não teve remédio senão ... | dominio_publico | História | null | Histórias sem Data | Machado de Assis | 93 | ||
do_obra_001902_022 | principal culpa era dela. Que diabo de teima por causa de um chapéu, que o marido usara
há tantos anos? Também o pai era exigente demais...
— Vou ver a cara com que ele vem, pensou ela.
Eram cinco e meia; não tardaria muito. Mariana foi à sala da frente, espiou pela
vidraça, prestou o ouvido ao bond, e nada. ... | dominio_publico | História | null | Histórias sem Data | Machado de Assis | 91 | ||
do_obra_001902_023 | doutrina, e tornarás às nossas velhas meditações.
Stroibus aceitou a proposta.
— O meu sacrifício é o mais penoso, disse ele, pois estou certo do resultado; mas
que não merece a verdade? A verdade é imortal; o homem é um breve momento...
Os ratos egípcios, se pudessem saber de um tal acordo, teriam imitado... | dominio_publico | História | null | Histórias sem Data | Machado de Assis | 83 | ||
do_obra_001902_024 | antes de produzido o efeito. Pítias, impaciente e incrédulo, mofava do amigo.
— Então? nada?
— Espera, dizia o outro, espera. Não se incute um vício como se cose um par de
sandálias.
Capítulo III
Vitória
Enfim, venceu Stroibus! A experiência provou a doutrina. E Pítias foi o primeiro | dominio_publico | História | null | Histórias sem Data | Machado de Assis | 77 | ||
do_obra_001902_025 | Eu preciso das funções e da vida.
— Que me dizes? redargüiu Ptolomeu. Queres estripar os ratos de Stroibus?
— Não, senhor; não quero estripar os ratos.
— Os cães? os gansos? as lebres?...
— Nada; peço alguns homens vivos.
— Vivos? não é possível...
— Vou demonstrar que não só é possível, mas at... | dominio_publico | História | null | Histórias sem Data | Machado de Assis | 110 | ||
do_obra_001902_026 | porque era infinito — sem margens, para que o fastio não viesse escrever nelas as suas
notas, — sem fita, porque já não tínhamos precisão de interromper a leitura e marcar a
página.
Uma voz chamou-me à realidade. Era um amigo que acordara tarde, e vinha
almoçar. Nem o sonho me deixava esta outra prima de Sapuca... | dominio_publico | História | null | Histórias sem Data | Machado de Assis | 86 | ||
do_obra_001902_027 | perguntando-lhe eu, estouvadamente, o que é que tinha que o mudara tanto.
— Que hei de ter? Imagina tu que comprei um bilhete de loteria, e nem tive, ao
menos, o gosto de não tirar nada; tirei um escorpião.
E, como eu franzisse a testa interrogativamente:
— Ah! se soubesses metade só das coisas que me têm ... | dominio_publico | História | null | Histórias sem Data | Machado de Assis | 85 | ||
do_obra_001902_028 | respeito, alegria rara e impura; uma vida gorada.
— Gorada, repetia ele, gesticulando afirmativamente com a cabeça. Não tem que
ver; a minha vida gorou. Hás de lembrar-te dos nossos planos da academia, quando nos
propúnhamos, tu a ministro do império, eu da justiça. Podes guardar as duas pastas; não | dominio_publico | História | null | Histórias sem Data | Machado de Assis | 76 | ||
do_obra_001902_029 | meses de quebra; a bela dama respondeu-lhes que era impossível e, trepando no alazão do
tempo, foi alojar-se na casa dos trinta.
Ela era, porém, daquela casta de mulheres que riem do sol e dos almanaques. Cor de
leite, fresca, inalterável, deixava às outras o trabalho de envelhecer. Só queria o de existir. | dominio_publico | História | null | Histórias sem Data | Machado de Assis | 78 |
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