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Que fez ao Rei e ao Reino tal serviço, |
Um Egas e um Dom Fuas, que de Homero |
A cítara par' eles só cobiço; |
Pois polos Doze Pares dar-vos quero |
Os Doze de Inglaterra e o seu Magriço; |
Dou-vos também aquele ilustre Gama, |
Que para si de Eneias toma a fama. |
Pois se a troco de Carlos, Rei de França, |
Ou de César, quereis igual memória, |
Vede o primeiro Afonso, cuja lança |
Escura faz qualquer estranha glória; |
E aquele que a seu Reino a segurança |
Deixou, com a grande e próspera vitória; |
Outro Joane, invicto cavaleiro; |
O quarto e quinto Afonsos e o terceiro. |
Nem deixarão meus versos esquecidos |
Aqueles que nos Reinos lá da Aurora |
Se fizeram por armas tão subidos, |
Vossa bandeira sempre vencedora: |
Um Pacheco fortíssimo e os temidos |
Almeidas, por quem sempre o Tejo chora, |
Albuquerque terríbil, Castro forte, |
E outros em quem poder não teve a morte. |
E, enquanto eu estes canto – e a vós não posso, |
Sublime Rei, que não me atrevo a tanto –, |
Tomai as rédeas vós do Reino vosso: |
Dareis matéria a nunca ouvido canto. |
Comecem a sentir o peso grosso |
(Que polo mundo todo faça espanto) |
De exércitos e feitos singulares, |
De África as terras e do Oriente os mares. |
Em vós os olhos tem o Mouro frio, |
Em quem vê seu exício afigurado; |
Só com vos ver, o bárbaro Gentio |
Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; |
Tétis todo o cerúleo senhorio |
Tem pera vós por dote aparelhado, |
Que, afeiçoada ao gesto belo e tenro, |
Deseja de comprar-vos pera genro. |
Em vós se vêm, da Olímpica morada, |
Dos dous avós as almas cá famosas; |
Ũa, na paz angélica dourada, |
Outra, pelas batalhas sanguinosas. |
Em vós esperam ver-se renovada |
Sua memória e obras valerosas; |
E lá vos têm lugar, no fim da idade, |
No templo da suprema Eternidade. |
Mas, enquanto este tempo passa lento |
De regerdes os povos, que o desejam, |
Dai vós favor ao novo atrevimento, |
Pera que estes meus versos vossos sejam, |
E vereis ir cortando o salso argento |
Os vossos Argonautas, por que vejam |
Que são vistos de vós no mar irado, |
E costumai-vos já a ser invocado. |
Já no largo Oceano navegavam, |
As inquietas ondas apartando; |
Os ventos brandamente respiravam, |
Das naus as velas côncavas inchando; |
Da branca escuma os mares se mostravam |
Cobertos, onde as proas vão cortando |
As marítimas águas consagradas, |
Que do gado de Próteu são cortadas, |
Quando os Deuses no Olimpo luminoso, |
Onde o governo está da humana gente, |
Se ajuntam em consílio glorioso, |
Sobre as cousas futuras do Oriente. |
Pisando o cristalino Céu fermoso, |
Vêm pela Via Láctea juntamente, |
Convocados, da parte de Tonante, |
Pelo neto gentil do velho Atlante. |
Deixam dos sete Céus o regimento, |
Que do poder mais alto lhe foi dado, |
Alto poder, que só co pensamento |
Governa o Céu, a Terra e o Mar irado. |
Ali se acharam juntos num momento |
Os que habitam o Arcturo congelado |
E os que o Austro têm e as partes onde |
A Aurora nasce e o claro Sol se esconde. |
Estava o Padre ali, sublime e dino, |
Que vibra os feros raios de Vulcano, |
Num assento de estrelas cristalino, |
Com gesto alto, severo e soberano; |
Do rosto respirava um ar divino, |
Que divino tornara um corpo humano; |
Com ũa coroa e ceptro rutilante, |
De outra pedra mais clara que diamante. |
Em luzentes assentos, marchetados |
De ouro e de perlas, mais abaixo estavam |
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