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Os outros Deuses, todos assentados |
Como a Razão e a Ordem concertavam |
(Precedem os antigos, mais honrados, |
Mais abaixo os menores se assentavam); |
Quando Júpiter alto, assi dizendo, |
Cum tom de voz começa grave e horrendo: |
– «Eternos moradores do luzente, |
Estelífero Pólo e claro Assento: |
Se do grande valor da forte gente |
De Luso não perdeis o pensamento, |
Deveis de ter sabido claramente |
Como é dos Fados grandes certo intento |
Que por ela se esqueçam os humanos |
De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. |
Já lhe foi (bem o vistes) concedido, |
Cum poder tão singelo e tão pequeno, |
Tomar ao Mouro forte e guarnecido |
Toda a terra que rega o Tejo ameno. |
Pois contra o Castelhano tão temido |
Sempre alcançou favor do Céu sereno: |
Assi que sempre, enfim, com fama e glória, |
Teve os troféus pendentes da vitória. |
Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, |
Que co a gente de Rómulo alcançaram, |
Quando com Viriato, na inimiga |
Guerra Romana, tanto se afamaram; |
Também deixo a memória que os obriga |
A grande nome, quando alevantaram |
Um por seu capitão, que, peregrino, |
Fingiu na cerva espírito divino. |
Agora vedes bem que, cometendo |
O duvidoso mar num lenho leve, |
Por vias nunca usadas, não temendo |
de Áfrico e Noto a força, a mais s'atreve: |
Que, havendo tanto já que as partes vendo |
Onde o dia é comprido e onde breve, |
Inclinam seu propósito e perfilha |
A ver os berços onde nasce o dia. |
Prometido lhe está do Fado eterno, |
Cuja alta lei não pode ser quebrada, |
Que tenham longos tempos o governo |
Do mar que vê do Sol a roxa entrada. |
Nas águas têm passado o duro Inverno; |
A gente vem perdida e trabalhada; |
Já parece bem feito que lhe seja |
Mostrada a nova terra que deseja. |
E porque, como vistes, têm passados |
Na viagem tão ásperos perigos, |
Tantos climas e céus exprimentados, |
Tanto furor de ventos inimigos, |
Que sejam, determino, agasalhados |
Nesta costa Africana como amigos; |
E, tendo guarnecido a lassa frota, |
Tornarão a seguir sua longa rota.» |
Estas palavras Júpiter dizia, |
Quando os Deuses, por ordem respondendo, |
Na sentença um do outro diferia, |
Razões diversas dando e recebendo. |
O padre Baco ali não consentia |
No que Júpiter disse, conhecendo |
Que esquecerão seus feitos no Oriente |
Se lá passar a Lusitana gente. |
Ouvido tinha aos Fados que viria |
Ũa gente fortíssima de Espanha |
Pelo mar alto, a qual sujeitaria |
Da Índia tudo quanto Dóris banha, |
E com novas vitórias venceria |
A fama antiga, ou sua ou fosse estranha. |
Altamente lhe dói perder a glória |
De que Nisa celebra inda a memória. |
Vê que já teve o Indo sojugado |
E nunca lhe tirou Fortuna ou caso |
Por vencedor da Índia ser cantado |
De quantos bebem a água de Parnaso. |
Teme agora que seja sepultado |
Seu tão célebre nome em negro vaso |
D' água do esquecimento, se lá chegam |
Os fortes Portugueses que navegam. |
Sustentava contra ele Vénus bela, |
Afeiçoada à gente Lusitana |
Por quantas qualidades via nela |
Da antiga, tão amada, sua Romana; |
Nos fortes corações, na grande estrela |
Que mostraram na terra Tingitana, |
E na língua, na qual quando imagina, |
Com pouca corrupção crê que é a Latina. |
Estas causas moviam Citereia, |
E mais, porque das Parcas claro entende |
Que há de ser celebrada a clara Deia |
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