text
stringlengths
0
230
Que só no contemplá-los, se não vê-los,
Se inflamam coracões e humanos peitos.
Em toda perfeição são tão perfeitos,
Que o desengano dão de merecé-los.
Não pode haver quem possa conhecê-los
Sem nele Amor fazer grandes efeitos.
Sentiram,por meu mal, tao graves danos
Os meus,que com os ver, cegos e tristes
Ficaram sem prazer, coa luz perdida.
Mas já que vós com eles me feristes,
Tornai-me a ver com eles mais humanos,
E deixareis curada esta ferida.
Fermosa Caterina, que dominas
Sobre minha vontade e pensamento,
Pois entendes a fé em meu tormento,
Por que com o não crer me desatinas?
Sempre mais na crueza te refinas,
Indina de teu alto entendimento,
Nem te prezas, cruel, de dar alento
A quem de amor tem dado mostras finas
O que eu cuido, ó fera, neste passo,
É que com verdadeiro amor te ama
O mesmo Amor, de teu amor rendido;
E por isso te deu ânimo escasso,
Porque tendo-te já por sua dama
Pretende ele só ser favorecido.
A uma Dama que jurou de não querer bem a um galante
Fermosa desumana, crua e forte,
Atenta que por ti preso e cativo
Pera mais morto ser não morro, e vivo
Vida que inda é pior que a mesma morte.
Licença a Cloto dá pera que corte
Esse fio penoso, duro, esquivo;
Porque, enquanto não morro, a vida privo
De sua qualidade, nome e sorte.
Ou não cumpras, cruel, o que juraste,
E mostra em socorrer a meu tormento
Piadade, justiça, graça, aviso.
E crê-me que a cumprir não te obrigaste,
Pois não é valioso o juramento
Que contém de terceiro prejuízo.
Fermosa mão que o coracão me aperta,
Se a vontade me tem em si sujeita,
Esta tão doce se mostra contrafeita,
Quando será que a veja cara e certa.
Meu repouso sonhado a dor desperta,
Inteira a pena, a glória é imperfeita;
Que vele em sonhos eu, que aproveita
Se, quando acordado estou, me é encoberta?
Manhosamente amor me favorece
Com mostras dalgum bem cheio de engano,
Um bem que pouco dura e mais empece;
Porque,tornando a vir o desengano,
Acordando-me o mal que me adormece
Faça fugir o bem e dobre o dano.
Fermoso Tejo meu, quão diferente
Te vejo e vi, me vés agora e viste,
Turvo te vejo a ti, tu a mim triste,
Claro te vi eu já, tu a mim contente!
A ti foi-te trocando a grossa enchente
A quem teu largo campo não resiste,
A mim trocou-me a vida em que consiste
Meu viver contente ou descontente.
Já que somos no mal participantes
Sejamo-lo no bem, ah! quem me dera
Que fossemos em tudo semelhantes!
Lá virá então a fresca Primavera,
Tu tornarás a ser quem eras dantes,
Eu não sei se serei quem dantes era.
Fermosos olhos, que cuidado dais
A mesma luz do Sol mais clara e pura;
Que sua esclarecida fermosura,
Com tanta glória vossa, atrás deixais;
Se por serdes tão belos desprezais
A fineza de amor que vos procura,
Pois tanto vedes, vede que não dura
O vosso resplandor quanto cuidais.
Calhei, colhei do tempo fugitivo
E de vossa beleza o doce fruto;
Que em vão, fora de tempo é desejado.
E a mim, que por vós morro e por vós vivo,
Fazei pagar a Amor o seu tributo,
Contente de por vós lho haver pagado.
Fermosos olhos, que na idade nossa
Mostrais do céu certíssimos sinais,
Se quereis conhecer quanto possais,
Olhai-me a mim, que sou feitura vossa.
Vereis que de viver me desapossa