text stringlengths 0 230 |
|---|
Aquele riso com que a vida dais; |
Vereis como de Amor não quero mais, |
Por mais que o tempo corra, o dano possa. |
E se ver-vos nesta alma, enfim, quiserdes, |
Como num claro espelho, ali vereis |
Também a vossa, angélica e serena. |
Mas eu cuido que, só por me não verdes, |
Ver-vos em mim, Senhora, não quereis: |
Tanto gosto levais de minha pena! |
Fermosura do Céu a nós descida, |
Que nenhum coração deixas isento, |
Satisfazendo a todo pensamento, |
Sem que sejas de algum bem entendida; |
Qual língua pode haver tão atrevida |
Que tenha de louvar-te atrevimento, |
Pois a parte melhor do entendimento |
No menos que em ti há se vê perdida? |
Se em teu valor contemplo a menor parte, |
Vendo que abre na terra um paraíso, |
Logo o engenho me falta, o esprito míngua. |
Mas o que mais me impede inda louvar-te |
É que quando te vejo perco a língua, |
E quando não te vejo perco o siso. |
Fiou-se o coração de muito isento |
De si, cuidando mal que tomaria |
Tão ilícito amor tal ousadia |
Tal modo nunca visto de tormento. |
Mas os olhos pintaram tão a tento |
Outros que visto tem na fantesia, |
Que a rezão temerosa do que via |
Fugiu, deixando o campo ao pensamento. |
Ó Hipólito casto que de jeito |
De Fedra, tua madrasta, foste amado, |
Que não sabia ter nenhum respeito; |
Em mim vingou o Amor teu casto peito, |
Mas está deste agravo tão vingado, |
Que se arrepende já do que tem feito. |
Foi já num tempo doce cousa amar, |
Enquanto me enganou uma esperança; |
O coracão, com esta confianca, |
Todo se desfazia em desejar. |
Oh! vão, caduco e débil esperar! |
Como se desengana ũa mudança! |
Que, quanto é mor a bem-aventurança, |
Tanto menos se crê que há-de durar. |
Quem já se viu com gostos prosperado, |
Vendo-se brevemente em pena tanta, |
Rezão tem de viver bem magoado; |
Mas, quem já tem o mundo exp´rimentado |
Não o magoa a pena nem o espanta, |
Que mal se estranhará o costumado. |
Gentil Senhora, se a Fortuna imiga, |
Que contra mim com todo o Céu conspira, |
Os olhos meus de ver os vossos tira, |
Porque em mais graves casos me persiga, |
Comigo levo esta alma, que se obriga, |
Na mor pressa de mar, de fogo, e de ira, |
A dar-vos a memória que suspira |
Só por fazer convosco eterna liga. |
Nesta alma, onde a Fortuna pode pouco, |
Tão viva vos terei, que frio e fome, |
Vos não possam tirar, nem mais perigos. |
Antes, com som de voz trémulo e rouco |
Por vós chamando, só com vosso nome |
Farei fugir os ventos e os imigos. |
Gostos falsos de amor, gostos fingidos, |
Gostos vãos sempre limitados, |
Gostos grandes quando imaginados, |
Gostos pequenos quando possuídos; |
Inda não alcançados já perdidos, |
Inda nao começados já acabados, |
Inconstantes, mudáveis, apressados, |
Aparecidos e desapar'cidos. |
Já vos perdi, e perdi a esperança |
De vos cobrar, agora só queria |
Convosco se acabasse esta lembrança. |
Que se me cansa a vida e a fantesia, |
Viver de vós tão longe, mais me cansa, |
Lembrar-me o tempo que vos possuía. |
Grāo tempo há já que soube da Ventura |
A vida que me tinha destinada, |
Que a longa experiência da passada |
Me dava claro indício da futura. |
Amor fero, cruel, Fortuna escura, |
Bem tendes vossa forca exp'rimentada; |
Assolai, destruí, não fique nada! |
Vingai-vos desta vida, que inda dura! |
Soube Amor da Ventura, que a não tinha, |
Subsets and Splits
No community queries yet
The top public SQL queries from the community will appear here once available.