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Co carro de cristal, o claro dia, |
Dando cargo à Irmã que alumiasse |
O largo mundo, enquanto repousasse. |
A noite se passou na lassa frota |
Com estranha alegria e não cuidada, |
Por acharem da terra tão remota |
Nova de tanto tempo desejada. |
Qualquer então consigo cuida e nota |
Na gente e na maneira desusada, |
E como os que na errada Seita creram, |
Tanto por todo o mundo se estenderam. |
Da Lũa os claros raios rutilavam |
Polas argênteas ondas Neptuninas; |
As Estrelas os Céus acompanhavam, |
Qual campo revestido de boninas; |
Os furiosos ventos repousavam |
Polas covas escuras peregrinas; |
Porém da armada a gente vigiava, |
Como por longo tempo costumava. |
Mas, assi como a Aurora marchetada |
Os fermosos cabelos espalhou |
No Céu sereno, abrindo a roxa entrada |
Ao claro Hiperiónio, que acordou, |
Começa a embandeirar-se toda a armada |
E de toldos alegres se adornou, |
Por receber com festas e alegria |
O Regedor das Ilhas, que partia. |
Partia, alegremente navegando, |
A ver as naus ligeiras Lusitanas, |
Com refresco da terra, em si cuidando |
Que são aquelas gentes inumanas |
Que, os apousentos Cáspios habitando, |
A conquistar as terras Asianas |
Vieram e, por ordem do Destino, |
O Império tomaram a Costantino. |
Recebe o Capitão alegremente |
O Mouro e toda sua companhia; |
Dá-lhe de ricas peças um presente, |
Que só pera este efeito já trazia; |
Dá-lhe conserva doce e dá-lhe o ardente, |
Não usado licor, que dá alegria. |
Tudo o Mouro contente bem recebe, |
E muito mais contente come e bebe. |
Está a gente marítima de Luso |
Subida pela enxárcia, de admirada, |
Notando o estrangeiro modo e uso |
E a linguagem tão bárbara e enteada. |
Também o Mouro astuto está confuso, |
Olhando a cor, o trajo e a forte armada; |
E, perguntando tudo, lhe dizia |
Se porventura vinham de Turquia. |
E mais lhe diz também que ver deseja |
Os livros de sua Lei, preceito ou fé, |
Pera ver se conforme à sua seja, |
Ou se são dos de Cristo, como crê; |
E por que tudo note e tudo veja, |
Ao Capitão pedia que lhe dê |
Mostra das fortes armas de que usavam |
Quando cos inimigos pelejavam. |
Responde o valeroso Capitão, |
Por um que a língua escura bem sabia: |
– «Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação |
De mi, da Lei, das armas que trazia. |
Nem sou da terra, nem da geração |
Das gentes enojosas de Turquia, |
Mas sou da forte Europa belicosa; |
Busco as terras da Índia tão famosa. |
A Lei tenho d' Aquele a cujo império |
Obedece o visíbil e invisíbil, |
Aquele que criou todo o Hemisfério, |
Tudo o que sente e todo o insensíbil; |
Que padeceu desonra e vitupério, |
Sofrendo morte injusta e insofríbil, |
E que do Céu à Terra enfim deceu, |
Por subir os mortais da Terra ao Céu. |
Deste Deus-Homem, alto e infinito, |
Os livros que tu pedes não trazia, |
Que bem posso escusar trazer escrito |
Em papel o que na alma andar devia. |
Se as armas queres ver, como tens dito, |
Cumprido esse desejo te seria; |
Como amigo as verás, porque eu me obrigo |
Que nunca as queiras ver como inimigo.» |
Isto dizendo, manda os diligentes |
Ministros amostrar as armaduras: |
Vêm arneses e peitos reluzentes, |
Malhas finas e lâminas seguras, |
Escudos de pinturas diferentes, |
Pelouros, espingardas de aço puras, |
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